As datas do nascimento e da morte de Heráclito são desconhecidas. Sabe-se, porém, que atingiu o acme de sua existência na época de 69a. Olimpíada, entre 504 e 500 a.C. […] De sua vida, pouco se conhece; supõe-se que tenha pertencido à aristocracia de Éfeso e que seus antepassados foram os fundadores da cidade” – Gerd Bornheim, Os Filósofos pré-socráticos

Os primeiros filósofos foram chamados de Físicos. Não porque se utilizavam do método científico para entender matematicamente a natureza, longe disso. Nossos filósofos antigos estava mais para poetas do que cientistas, mas seu objetivo era um só: estudar a pysis, a natureza, compreendê-la em seus processos mais misteriosos.

Heráclito é nosso maior representante de uma filosofia que procura neste mundo as explicações deste mundo. O filósofo quebra com todas as explicações míticas e procura dar conta da existência observando-a cuidadosamente. Para ele a filosofia não é tarefa fácil e não pode arrogar-se a papel menor de consolar os homens. Filosofar exige coragem, e não é feito para agradar ou receber honras.

Através da observação meticulosa da natureza, a primeira constatação de Heráclito é: todas as coisas estão em movimento. Sim, tudo é uma questão de fluxos, mudanças, transformações. O Sol nasce e se põe, a criança cresce, envelhece e morre, as estações do ano mudam uma após a outra, o rio flui… o rio flui sempre. Heráclito nega o ser, ou melhor, o ser é vir-a-ser, modificação contínua. O fundo das coisas é a mudança, a única constância é a inconstância.

Por isso o filósofo pode dizer sem medo de errar: “O fogo é gerador do processo cósmico”. Esta é a substância primordial. O fogo se condensa e torna-se ar, depois água, depois terra. Tudo veio do fogo e tudo retornará ao fogo, eternamente, num ciclo inexorável. A substância primordial é constante movimento e transformação. Nada sofre impunemente os efeitos do fogo. A substância primordial consome, é sinônimo de movimento.

Nós nos enganamos ao usar conceitos fixos, ideias fixas, diz Heráclito, porque tudo está em movimento, ora lento, ora acelerado. Nada escapa do vir-a-ser, por isso a substância essencial só pode ser o fogo. E Heráclito não diz isso de maneira metafórica, é real, é realmente o fogo! Os filósofos pré-socráticos são materialistas ao extremo.

Muitos não entendem estas coisas, mesmo as encontrando em seu caminho, e não as entendem quando ensinados; mas pensam saber” – Heráclito, Os Pensadores

Isso levou Heráclito a ser considerado um filósofo misantropo, que não gostava de se misturar, vivia pelos cantos da cidade, foi inclusive chamado de “O Obscuro”. Enquanto Demócrito ficou conhecido como o filósofo que ri, Heráclito foi taxado de soturno, melancólico, o filósofo que chora. Suas verdades não eram populares, bem aceitas. “Também quando ouvem não compreendem, são como mudos. Justificam o provérbio: presentes, estão ausentes” (Heráclito). A alma dos homens é úmida, diz Heráclito, eles estão afundados no lodo, não conseguem se movimentar. Por isso não compreendem o fluxo constante e inabalável da existência.

Mais vale então manter distância, para não se desapontar. “Não se deve agir nem falar com os que dormem” (Heráclito). E muitos ainda dormem! Como bem lembra Nietzsche, a saúde deve manter distância da doença. Não se pode quebrar com as ilusões humanas sem se pagar um alto preço por tal afronta.

– Osnat Tzadok

Se o ser é este constante afirmar-se, não surpreende que de seu fluir nasça seu oposto, seu contrário, o diferente, o estranho, o anômalo, a multiplicidade. O ser, no próprio ato de afirmar-se, se destrói e se recria. A existência acontece dentro desta tensão, como a música nasce da tensão das cordas da lira ou a flecha viaja com a força da tensão da corda do arco.

A justiça eterna está neste conflito de opostos. A justiça não passa da Imanência agonista. Sem Demiurgos que a sustente, conduza ou justifique. Para onde segue tudo isso? Ora, para lugar nenhum, o fluir não procura um ponto de repouso. Eis a imanência, tudo se dá aqui, pelo próprio ato de efetivação. Em si, não por outro ou para outro, não há fora.

Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia” – Heráclito

Esta seria a origem de tudo, a arkhé, em grego. Mas estamos falando de uma filosofia imanente, logo, a origem está no presente, no aqui e agora! Ela não é causa transitiva, não é um deus que faz o mundo e fica observando à distância. Querem saber o que é a imanência ígnea de Heráclito? É a origem que se mantém no presente a todo instante, como um fogo queimando continuamente, criando e destruindo simultaneamente. Os pré-socráticos eram superiores aos seus sucessores por isso: não necessitavam de nada fixo regendo o universo, não se escondiam em Deuses suprassensíveis ou na incorruptibilidade de um mundo superior.

O mundo justo é apenas este em que vivemos. Os deuses vivem conosco e não entendem de injustiças, tudo está justificado, tudo é porque precisa ser, pela própria correlação de forças. A realidade expressa-se como efetuação, simples assim. Onde está a justiça? Na potência de afirmação. Heráclito acredita na guerra, uma sabedoria agônica. É na relação de forças que a grandeza se manifesta, a luta traz o novo. É preciso encarar de frente estas verdades, caso contrário seremos apunhalados pelas costas.

O trágico é a visão de mundo que comporta uma grande quantidade de dor sem maldizer a existência. Esta é a visão de mundo do filósofo pré-socrático. Heráclito procura por uma substância  que mostre ao homem o que é o mundo e traga uma ética para experienciá-lo. Uma existência trágica exige a capacidade de afirmar a sacralidade deste mundo considerando todos os seus aspectos, mesmo os mais terríveis. A doutrina de um fluxo perpétuo é aflitiva, muitas vezes atroz, mas é nosso meio de viver a realidade sem fazer concessões. Eis uma perfeita Ética Ígnea!

Tudo é justo, tudo precisa ser, mesmo a dor, a fome, os sofrimentos. Apenas o homem pequeno não vê que tudo está ligado, tudo está conectado, tudo faz sentido. A filosofia de Heráclito é o caminho para o grande Sim, que toda filosofia imanente precisa buscar. A capacidade de afirmar este mundo, esta realidade, esta vida, em todos os seus aspectos, somete assim podemos atuar nela decentemente. A filosofia de Nietzsche, Deleuze, Espinosa, Foucault e vários outros partilham destas mesmas concepções.

O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá; governo da criança” – Heráclito

A Criança é como a última transformação do espírito em Nietzsche. Primeiro se tem o Camelo, que pede, implora, para tudo carregar, orgulhando-se de sua capacidade de suportar o peso do mundo. Logo após, temos o leão, que diz não, que impõe limites, que quer destruir valores. Mas nem mesmo o leão pode criar valores. Cabe à fera transformar-se em criança, esta é a inocência do vir a ser, uma roda que gira por si mesmo, apenas ela é capaz de continuamente criar novos valores, para além do bem e do mal.

O governo da criança é na imanência, e nela tornamos a existência novamente inocente. Nada há fora do todo que pudesse nos julgar, dar sua sentença, tornar impuro. A vida é esta, apenas esta, e tudo se faz aqui, nesta faísca entre o incêndio. Heráclito cria uma filosofia pensando apenas no nascer do rio e seu desaguar no mar, nada antes ou depois importa.

Pois o mundo precisa eternamente da verdade, portanto precisa eternamente de Heráclito: embora este não precise do mundo. Que importa a ele sua glória? A glória entre ‘mortais que sempre continuam a fluir’, como ele exclama sarcasticamente! Sua glória importa algo aos homens, não a ele, a imortalidade da humanidade precisa dele, não ele da imortalidade do homem Heráclito. Aquilo que ele contemplou, a doutrina da lei no vir-a-ser e do jogo na necessidade, tem, a partir de agora, de ser eternamente contemplado: ele ergueu a cortina desse espetáculo máximo” – Nietzsche, A Filosofia na Época da Tragédia Grega

Texto da série: Imanência

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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