Não acreditamos em astrologia, mas que ela existe, existe…” – Ditado Inadequado

O problema não é que a astrologia não responda às perguntas fundamentais feitas pela ciência. “Por que no momento do nascimento?“, “Que aspectos anti-astrológicos possui a placenta?“, “Existe uma astrologia do macaco? Dos porcos? Das bactérias?“. Claro, as perguntas são interessantes, mas nos fazem rir também porque não pensamos que a ciência possua todas as respostas. É importante dizer logo de início: nossas questões não habitam este terreno. Para nós, o buraco é mais embaixo.

A astrologia natal, aquela feita pensando no momento exato do nascimento, foi estabelecida pelos gregos há aproximadamente dois mil anos. São doze constelações que relacionam a posição dos astros do nosso sistema solar no céu (apenas aqueles que os gregos podiam ver, claro) com aspectos importantes da personalidades das pessoas, incluindo suas oscilações de humor e acontecimentos futuros relevantes.

Que a Astrologia não seja uma ciência não é nenhuma novidade… Tanto a teoria gravitacional de Newton e Einstein, bem como a teoria eletromagnética de Maxwell não mostram nenhuma influência dos astros sobre nós, pois é, nenhuminha… Por isso precisamos seguir por outro caminho, porque ainda assim sabemos que este fenômeno cultural atinge e influencia a todos, quase sem exceção.

Mas se não existe e ao mesmo tempo é real, então podemos colocá-la no mesmo nível que as religiões, e até mesmo que a psicanálise? Ora, não procuramos por uma verdade inquestionável da astrologia, não somos ditadores da verdade, nossa preocupação é muito mais a pergunta nietzschiana por excelência:

Que valor tem eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indício de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revelam-se neles a plenitude, a força, a vontade de vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro?” – Nietzsche, Genealogia da Moral, Pr.§2

A astrologia nos traz um conjunto de valores, um modo de vida. Queremos nos manter neste terreno porque aí está todo o perigo para nós: quais são estes conjuntos de valores? Para onde eles nos levam? Quais as suas influências em nossas vidas? Para isso, à maneira de Deleuze, gostaríamos de apresentar cinco proposições concernentes à psicanálise, ops… à astrologia:

  1. A astrologia funciona ao ar livre: Oh, que grande perigo quando Marte em Câncer e Vênus em Libra são ditos em voz alta na praça pública ou escondidos em uma sessão mística! Não há ninguém para impedir tal afronta? Não… ninguém. Vemos uma contaminação geral do discurso astrológico, ele está por toda parte! Não respeita idade, gênero, nacionalidade. A astrologia funciona “nos poros livres da sociedade“, está por toda parte: na escola, nas mesas de bar, na televisão, no metrô, na última página do jornal, até mesmo nas grande decisões de empresas multinacionais.
    Pensamos que a astrologia fala muito de personalidades, mas é sempre para taxá-las e reduzi-las! São rótulos que colocamos nas pessoas antes mesmo de as conhecer. Aí se introduz a sua autoridade! Mas nós queremos diferente, as personalidades devem ser produzidas, inventadas! (É isso que a astrologia faz, mas queremos retomar este processo para nós). A tarefa de se conhecer é árdua e envolve muita desconstrução.
    Sendo assim, podemos dizer com certeza que não é a posição dos astros no momento do nosso nascimento que fornecerão o melhor caminho para isso. Qual destino possível senão aprendermos a cavalgar os acontecimentos e a recriar nossas personalidades em meio ao caos? Como disse Deleuze: não nos deixarão experimentar em nosso canto, logo vão nos taxar e rotular. Quais as possibilidades de experimentação se cada casa do zodíaco nos constrange, limita, determina?
  2. A astrologia é uma máquina já pronta: como falar se tudo já está dito? Que espaço haveria para a espontaneidade se eternamente meu ascendente amarra meu destino, meus humores? Os astros fornecem a já conhecida liberdade dentro de certos limites. Um jogo de cartas marcadas. Mesmo tratando-se de “influência” e não “determinismo”, precisamos matar a astrologia da mesma maneira que matamos deus! Ela produz uma espécie de esmagamento da vida, oferece barreiras intransponíveis, demarcações rígidas, fronteiras impenetráveis.
    A Astrologia não passa de mais uma pedra no caminho para nós mesmos. Ao se consultar com um astrólogo, tem-se a impressão de se conhecer, mas a astrologia suprime as condições de uma verdadeira expressão. O conhecimento, para nós, é sempre sinônimo de criação, um cuidado de si, que orienta por um caminho para além da identidade.
  3. A Astrologia dispõe de uma máquina automática de interpretação: a única coisa da qual esta pseudociência pode se gabar está aí: na força de sua simbologia. É neste sentido que dizemos que não acreditamos na astrologia mas ela existe. Signos despóticos, signos despóticos para todo lado! Eis a força de seus discurso. Não se engane, tudo que você disser será jogado em uma máquina de interpretação pastosa e poderá ser usado contra você!
    Aí, tão típico de Áries…“.
    Astrologia não tem nada a ver com adivinhação. Temos a impressão de falar, mas o espaço para movimento já está todo preenchido. Os signos astrológicos recortam e realidade e impedem que outros fluxos escapem. Onde estão as linhas de fuga que permanecem escondidas neste discurso? Precisamos encontrá-las! Todos os enunciados se rebatem sobre o mapa astral e trazem significados outros, últimos, fechados. Significantes se tornam justificantes. Vivemos sob signos que carregamos como camelos! Mas nós queremos inventar novas línguas para falar das estrelas e de nós (a astronomia, por exemplo, faz isso de maneira incrível, mas existem outros…)
  4. A astrologia pertence a um pequeno número de enunciados capitalistas: desde sempre a astrologia pertenceu ao poder! A ordenação do cosmos justificando a ordenação dos homens. Astrologia era coisa de elite, Galileu, por exemplo, era astrólogo da família Médici. (talvez por isso não surpreenda astrólogos ganharem mais que astrônomos). Com a astrologia,afundamos de vez no senso comum do campo social: as superstições crescem onde a ação está vetada (ressentimento), e principalmente onde há medo generalizado. Resultado: forças misteriosas, fatos escondido, um destino oculto a se cumprir, poderosas influências inconscientes, separação mente/corpo, determinismo/livre-arbítrio.
    Enfim, podemos dizer que a astrologia não passa de mais uma axiomatização capitalista: ela será socialmente mantida e aceita enquanto estiver encaixada dentro de um sistema de lucros e gestão, mais uma peça da maquinaria. Um produto e ao mesmo tempo uma âncora na qual nos seguramos. Um entorpecente, tanto quanto a cerveja ou a religião. Todo escravo procura por sentidos ocultos e direções para seguir, neste sentido, quanto menos esforço, melhor. Todos procuram por um mentor, mesmo que seja um guia cego e manco chamado astrólogo. Não queremos o consolo de tudo estar certo, organizado e justificado; dentro de uma sociedade de controle, as axiomatizações fazem isso por nós, mas não escapamos por baixo, desviando dos horóscopos diários.
  5. Há na astrologia uma tentativa de retorno às origens, como se houvesse uma sabedoria perdida, primordial, superior. Pensa-se que a quintessência das estrelas possua as respostas que procuramos. Pensa-se por imagens transcendentes, imperecíveis, que projetam sombras em nossa caverna. O desespero por sentido nos faz regredir a velhas e ultrapassadas fórmulas.
    Se por um lado encontramos um “conhece teu eu profundo“, dito da maneira mais auto-ajuda possível, do outro vemos uma tentativa de subversão destes aparelhos que circulam em nossa sociedade formalizando e formatando subjetividades (impressionantemente, às vezes eles se misturam). De um lado, uma procura por nossa essência íntima, uma espécie de memória eterna, e do outro, uma força positiva de esquecimento e criação.

O que nos interessa nisso tudo? Abdicamos de deuses e mestres, não queremos gurus ou autoridades dizendo quem somos e para onde devemos ir. Temos que partir, este campo tornou-se infértil para nós. A simbologia astrológica vale tanto quanto qualquer outra coação que nos cria rostos e identidades, ou seja, nada

É necessário renovar os movimentos de fuga, sacudir os signos e encontrar novos, experimentar devires. Sentimos ares de 68 ao dizer “Astrólogos, vocês são velhos, e seu conhecimento também”. Estamos sendo compreendidos? Não? Ótimo, queremos fazer o pensamento fugir para lados ainda desconhecidos! Novos sentidos, novos signos, novas vidas.

É hora de encontrar novas constelações, grafar desenhos novos no céu, criar máquinas de guerras assignificantes que não sejam tão facilmente capturada pelo Estado. Enfim, multipliquemos doze por mais doze, por mil, por um milhão, até chegar ao ponto em que o guarda chuva astrológico não dará mais conta das subjetividades que nascerão por nossas próprias mãos e corpos.

A astrologia é um campo de conhecimento em meio a outros mil, ela cria subjetividades, isso é fato, e exatamente isso é o problema. A nossa questão nunca foi a dicotomia verdade/falsidade, para nós é tudo uma questão de gosto, interesse. E para onde nos leva o corpus de conhecimento astrológico? Certamente não é para onde queremos ir…

Veja também: Cinco proposições sobre a psicanálise

 

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

5 comentários

  1. Teu texto me parece mais uma crítica ao uso capitalístico da astrologia pelos oportunistas que se dizem astrólogos do que à astrologia mesma. Ela é uma arte extremamente complexa (assim como a alquimia, por exemplo) que geralmente as pessoas tendem a interpretar a partir de rótulos atribuidos ao signo solar e ao ascendente.
    Essa simplificação e o mau uso da astrologia é que, na minha opinião, enquadra, restringe e limita as pessoas. Há linhas dentro da astrologia que definem o mapa natal como um marcador de desafios. Que as características de personalidade estariam justamente nas casas vazias… Enfim, a leitura aprofundada de um mapa quase sempre acaba apontando contradições e aspectos de oposição, muito mais do que traços ou tendências de personalidade.
    Em algum livro, não lembro qual, Jung fala que a maior parte dos conhecimentos desenvolvidos dentro da astrologia como a conhecemos surgiram no sec. XX

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  2. É lamentável que uma pessoa tão inteligente como você, Rafael, tenha uma visão tão limitada sobre a Astrologia, esse saber cheio de linhas de fuga e que de maneira nenhuma define/taxa/reduz a personalidade de uma pessoa. Astrologia é a Poética do Tempo, este que segue em curso constante. Vale lembrar que na leitura de um mapa natal são considerados de 7 a 10 planetas, suas posições de acordo com os 12 signos, suas localizações dentro das doze casas do Zodíaco, além dos aspectos que os planetas fazem entre si. São muitos fatores distintos, sem contar os nodos lunares, estrelas fixas, lotes ou partes arábicas que um bom astrólogo é capaz de ler. Trata-se de um saber muito mais complexo do que se imagina, e a Astrologia de Natividades é apenas uma entre os 7 ramos de estudo da Astrologia. Podemos dizer que a Astrologia apresenta muito mais as tendências e as forças que atuam sobre nós em um determinado tempo do que qualquer definição de personalidade. É claro que existem os charlatães que fazem mal uso da Astrologia, mas procure um bom astrólogo ou se informe um pouco mais a respeito que você vai se surpreender.

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