Skip to main content

Carrinho

Close Cart

O mundo verdadeiro – alcançável? De todo modo, inalcançado. E, enquanto não alcançado, também desconhecido. Logo, tampouco salvador, consolador, obrigatório: a que poderia nos obrigar algo desconhecido? (manhã cinzenta: primeiro bocejo da razão. Canto de galo do positivismo.)”

– Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, cap IV

Platão enfrentou o vir-a-ser com as ideias; Kant, mesmo após a morte de Deus, nos presenteou com a razão crítica, firme, equilibrada e legisladora. O que acontece se saltarmos para além da razão e da Ideia? Caímos no reino do irracional, dos simulacros, da mais completa falta de sentido. O que existe do outro lado do espelho? O que existe para além do fenômeno? De que maneira podemos nomear o para além da representação? O perigo é não haver volta… para Schopenhauer, não houve, o filósofo se perdeu nas profundezas da caverna da Vontade.

Era uma vez um niilismo passivo onde um filósofo alemão criou um plano de imanência: a Vontade. Somos parte de algo maior que se afirma em nós, para além de nós, e apesar de nós. A Vontade é esta força que a tudo devora, tudo leva, tudo captura. Querer infinito, ânsia insaciável. No fim das contas, somos todos servos da Vontade, que faz de nós seus instrumentos, para levar a si mesma adiante. A Vontade tudo devora, mas nunca está satisfeita! O corpo é Vontade objetivada, o querer é Vontade de Vida, o cérebro é órgão da Vontade. A existência de cada um de nós é puro esforço contínuo para sobreviver e se perpetuar. Somos escravos presos a correntes inquebrantáveis.

A caverna de Schopenhauer é a caverna do querer, a Vontade se manifesta em nós como um pêndulo, levando da dor de querer ao tédio de alcançar (com pequeníssimos intervalos de satisfação), para novamente nos lançar à dor, reiniciando o ciclo. Procuramos manter a vida, mas a que custo? Nos esforçamos para existir, para quê? Vista do exterior a vida da maioria das pessoas carece totalmente de sentido! É absolutamente insignificante, tosca, irrefletida. Vagamos sonolentos, afogados em pensamentos triviais, inúteis. Somos relógios que deram corda e não sabemos qual o sentido de tudo isso. A grande maioria das histórias de vida é recheada de sofrimentos inefáveis, tormentos indescritíveis, dores excruciantes. A morte muitas vezes chega como um grande presente, o fim desta maldição chamada vida.

Uma criança entrar aos cinco anos de idade numa fiação de algodão, ou outra fábrica qualquer, e ali sentar-se todos os dias primeiro dez, depois doze e finalmente quatorze horas para realizar sempre o mesmo trabalho mecânico é pagar um preço elevado demais pela diversão de respirar”

– Schopenhauer, o Mundo Como Vontade e Como Representação II

Schopenhauer leva a dor às últimas consequências, porque ela não tem sentido! Somos meros joguetes de um mundo enorme que se afirma apesar de nós, indiferente às nossas mazelas e sofrimentos. Um pouco pior e seria impossível viver, conclusão: nós só podemos estar vivendo no pior dos mundos possíveis! Um pouco pior e seria impossível continuar!

Aqui, então, a coisa torna-se grave, e impõe-se ao ser humano a pergunta sobre a origem e o fim de tudo isso e, principalmente, se a fadiga e a miséria da sua vida, se a fadiga e a miséria dos seus esforços são compensadas pelo ganho obtido”

– Schopenhauer, o Mundo Como Vontade e Como Representação II

Neste momento, algo em Schopenhauer se quebra, algo se solta, a pergunta é realmente séria, é a fundação de sua ética: afinal, vale a pena viver? Vale a pena abençoar este mundo por ele mesmo? Não. A resposta é definitiva. O passado é irrecuperável, o presente é insuficiente, o futuro é incerto. Mais valeria não ser do que ser. Schopenhauer não encontra forças para afirmar este mundo. Tudo está impregnado de dor assim como no inferno tudo está impregnado de enxofre. Estamos condenados.

O objetivo da vida é bastante incerto, e resulta pelo menos duvidoso se ela não seria preferível ao não ser, e mesmo, se a experiência e a ponderação tiverem a última palavra, o não-ser tem de triunfar. Se se batesse nos túmulos para perguntar aos mortos se querem ressuscitar, eles sacudiriam a cabeça negando”

– Schopenhauer, o Mundo Como Vontade e Como Representação II

O problema do niilismo é a própria existência de um mundo que carece de sentido! Se desatamos a vida do reino das ideias (que regulava este mundo de fora, para selecionar os bons pretendentes) e da Razão Iluminista (otimista com seu humanismo, progresso, lucros e direitos) não sobra nada! Absolutamente nada! O otimismo chega a ser imoral em face das dores do mundo. A Vontade é portadora de sofrimentos infindáveis, a saída? A maneira de escapar? Como acabar com a falta de sentido? Simples: negação da Vontade. Se a própria existência como um todo é fonte destas agruras, e nós não podemos eliminar o mundo, a saída é eliminarmos a nós mesmo.

Uma espécie humana improdutiva, sofredora, cansada de viver […] não possuindo mais a força de interpretar, de criar ficções, produz o niilista. Um niilista é um homem que julga que o mundo tal como é não deveria existir, e que o mundo tal como deveria ser não existe, Portanto, viver (agir, sofrer, querer, sentir) não tem sentido: o que há de patético no niilismo é saber que ‘tudo é vão’ – e este próprio patético é ainda uma inconsequência do niilista”

– Nietzsche, Fragmentos Póstumos

Niilismo Schopenhauer

– Zdenka Palkovic

O niilismo fraco é o niilismo negativo e reativo levado às últimas consequências. Tudo está corroído, mas já não há volta. Tudo se torna igual, indiferente. O niilismo passivo constata a falta de sentido através de sua falta de potência. É impossível criar, nada tem sentido, nada vale a pena, diz ele. A razão, a meta, o sentido foram destruídos, se perderam para sempre. Caímos no abismo, desta vez sem corda, afundamos na escuridão. Os valores fictícios que mediavam o mundo não se sustentam mais! Colapso da Razão! Desabamento do mundo das ideias. O niilismo passivo desesperado é ainda platônico, porque encara o vir-a-ser como monstruoso, mas não encontra mais outro mundo no qual se segurar. Não existe âncora para o niilismo, estamos à deriva!

Ao desconhecido monstruoso foi dado um nome: Vontade! Oh, que plano de imanência horrível! Depois dele, não há consolo, não há salvação! Estamos condenados a este mundo, nada mudará, nada melhorará! Estamos perdidos no reino do despropósito e da falta de sentido. O barco afundou e não sabemos nadar! Pra que agir? Nada vale a pena! Pra que pensar? Não há respostas possíveis! O conhecimento do mundo é agora fonte de repugnância do mundo, e nada mais. Todo otimismo torna-se ilusão, falsidade, ingenuidade! Toda justificação da vida torna-se estúpida e tola. O que fazer?

Só há uma saída da Vontade, Schopenhauer, através da figura do asceta, cria um conceito: Negação da Vontade. Um quietivo, a aceitação passiva, mortificação da alma e do corpo, renúncia voluntária de todo querer. A roda de Íxion precisa parar, a pedra de Sísifo não pode mais rolar, a sede de Tântalo não deve perdurar! Apenas da negação da Vontade surge a paz. Abdicar da Vontade de viver, negá-la. A ascese é a resposta para todo o querer, fonte de tormentos neste mundo. Não o suicídio, mas a desistência passiva. Se o mundo é sujo, se estamos manchados de pecado original, que é o próprio ato de viver, a saída, a redenção, é a negação da Vontade de Viver. Aceitação plena de que mais valia a pena não ter nascido e que seria melhor se o mundo como um todo simplesmente não existisse.

A vida é algo vão e fútil, a morte resolve este problema, este pequeno inconveniente que é ter que viver. Aquele que renuncia a viver, morre tranquilo e resignado. O filósofo é tomado pela vontade de hibernar, pela tentação de dormir, pelo ímpeto de silêncio e quietude. A dor paralisou tudo, a falta de sentido congelou o movimento, o niilismo trinfou, não temos mais capacidade fisiológica de lutar contra o niilismo, de habitar o vir-a-ser, estamos cansados, vencidos, fomos derrotados pela existência.

O que resta após a completa supressão da Vontade é, de fato, o nada. Mas, inversamente para aqueles nos quais a Vontade virou e se negou, este nosso mundo tão real com todos os seus Sóis e Vias Lácteas é – nada”

– Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Como Representação

Schopenhauer é uma filosofia para tempos difíceis, para corações marcados, para almas cansadas. É uma maneira de habitar este plano de imanência tão onipotente e devastador. Como dissemos, cada um tem a filosofia que merece, cada um cria os conceitos de que é capaz. A Vontade de Schopenhauer é para os doentes, mas nós perguntamos: quem nunca ficou doente? Quem nunca foi deixado de joelhos pela impiedade do mundo?

Minha filosofia, por conseguinte, não tira conclusão alguma sobre o que existe para além de toda a experiência possível, mas simplesmente fornece a exegese do que é dado no mundo exterior e na consciência de si, satisfeita, portanto, em captar a coerência deste consigo mesmo. Ela é, consequentemente, uma filosofia imanente”

– Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Como Representação II

Sim, imanente, para além do niilismo negativo e reativo, mas eternamente presa no niilismo passivo, sem forças para afirmar este mundo. Schopenhauer se coloca ao lado da ética cristã de maldizer este mundo e renunciar a ele. Será que o homem é necessariamente reativo? A falta de sentido pode ser pensada como uma bênção ou como uma maldição porque depende da capacidade fisiológica, da saúde e da doença de cada um. Ou se procura uma saída ou se vive segundo Schopenhauer, recluso, fechado, esperando a morte. Enquanto o niilista passivo se afoga na realidade, porque não aprendeu a nadar no mar da imanência, existem outros que querem fazer algo com isso, utilizar o mundo como matéria de criação. Sim, dizem os niilistas passivos, algo deve morrer. O quê? A própria fraqueza, diz Nietzsche, aquele que aprendeu a transvalorar valores e transformou o niilismo passivo em ativo.

Texto da Série:

4 Formas de Niilismo

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

Mais textos de Rafael Trindade
guest
6 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Heitor Francis
Heitor Francis
2 anos atrás

Coisa linda!

Matheus V
Matheus V
2 anos atrás

Texto simplesmente maravilhoso!

Sales
Sales
2 anos atrás

Simplesmente perfeito.

Apenas mais um
Apenas mais um
2 anos atrás

Sou um niilista passivo estou pra ir embora belas palavras adeus

Mateus Costa
Mateus Costa
1 ano atrás

Schopenhauer é a filosofia que mereço, a meu ver a vida é como um jogo a única opção é aceitar o simulacro: trabalhar, estudar, casar… Se temos fragmentos de felicidade tudo bem mas não podemos nos apegar a felicidade, vontade ou a nossos instintos animalescos, sigo preceitos cristãos acredito de certa forma em uma salvação, se houver ótimo se não houver tudo bem ao menos o descanso.

Hermes
Hermes
1 ano atrás

Ótimo artigo. Muito claro.