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A “Ética à Maneira dos Geômetras” é o livro mais importante de Espinosa porque procura pavimentar o caminho que leva da servidão à liberdade utilizando o conhecimento ontológico da necessidade. Dito de outra maneira, a Ética apoia-se no Ser como aquilo que se apresenta necessariamente dessa maneira e de nenhuma outra. É desta perspectiva que os problemas filosóficos são tratados.

Parte-se da ideia de que à ordem da Natureza – ou de Deus, dá na mesma – não cabe nenhum tipo de contingência. Deus é causa de si mesmo e de tudo de maneira eficiente, imanente e necessária. Não há nada que vá contra a Natureza, não há surpresa, não há contrariedade entre possíveis. Estamos no reino da pura necessidade. Essa é a fundação da Ética ou, como diz Deleuze, é o seu plano de imanência.

Da necessidade produtiva de Deus surge o homem, um modo pela qual a potência infinita determina-se de maneira finita. O homem é um modo de expressão da potência divina, ele é parte integrante da Natureza. Embora não seja como Deus, não há no homem nada que escape à necessidade. Apesar de haver diferenças essenciais entre a Natureza (Deus) e seus modos (homens, animais, coisas), não há distância que os separe.

É assim que esse plano ontológico, do conhecimento do Ser, é apresentado geometricamente por Espinosa na primeira parte do livro. Em seguida, o filósofo parte por essa estrada como que colhendo os frutos desse Deus-Natureza, parando por vezes em escólios e apêndices para conversar com o leitor e dar tempo às suas inevitáveis vertigens. Apesar de pavimentada, tal estrada não deixa de chacoalhar um bocado nossa viagem.

Os conceitos criados por Espinosa nesse plano de imanência – como se olhasse nos olhos de Deus, digamos assim – são muito diferentes dos que veremos ao longo destes textos sobre os escritos teológico-políticos do filósofo e é importe ressaltar o motivo. Dada a absoluta necessidade de Deus, nada sai da ordem da Natureza. Ou seja, tudo o que existe segue a absoluta necessidade, sem exceção. Mas quando adentramos no campo político, do governo dos homens, dos desentendidos, da Tirania, das guerras e impotências … começa a parecer que a Ética não dá conta. É por isso que o Tratado Teológico Político começa de outra forma:

Se os homens pudessem regrar todos os seus assuntos seguindo um propósito irrevogável ou, ainda, se a fortuna lhes fosse sempre favorável, jamais seriam prisioneiros da superstição. Mas reduzidos com frequência a um extremo tal que não sabem o que resolver, e condenados por seu desejo desmedido de bens incertos da fortuna a flutuar sem trégua entre a esperança e o medo, têm a alma naturalmente inclinada à mais extrema credulidade”

– Espinosa, Tratado Teológico-Político, Prefácio

Ao pensar a vida cotidiana e imediatamente política dos homens entramos na ordem comum da Natureza, aquela referida às “coisas humanas”, dos encontros fortuitos ou contingentes. No fazer político, vemos com clareza, o homem não se baseia no conhecimento da necessidade, mas na relação imaginária que mantém com o mundo e com os outros.

Espinosa abre o livro com uma evidência que não podemos deixar de considerar: a política opera em outro campo. Os homens não são deuses e, por isso mesmo, a pura necessidade os escapa. É por isso que sua percepção oscila de acordo com o que lhes promete favorecimento. Ao estabelecer relações políticas, os homens buscam a utilidade, sem grande compreensão da necessidade, apenas seguindo o desejo de conservação.

A Fortuna, segundo Espinosa, é o governo das coisas humanas por Deus na medida em que este usa causas externas desconhecidas. Estamos falando do campo onde a percepção do homem sobre o mundo impera. A Natureza pode ser o reino da necessidade, mas isso não significa que o homem a perceba dessa maneira! A Fortuna não possui nenhum sentido em termos ontológicos, mas passa a ganhar sentido quando consideramos o campo político.

É impossível ao homem conhecer a absoluta necessidade em sua totalidade. Esta é a primeira evidência e deve embasar a nossa análise do campo político. Não estamos mais olhando para Deus, mas encarando os homens! Sempre haverão causas inalcançáveis para a razão humana, o que faz o homem imaginar que vive na contingência. Ele desconhece a razão pela qual as coisas são o que são e logo conclui que não há necessidade, mas apenas inconstância e segue para a política carregado de afetos que decorrem dessa percepção.

Espinosa Fortuna

Rembrandt

Há ainda outra evidência que não podemos desconsiderar, como uma espécie de ordenada desse nosso plano político. Todo homem nasce ignorante, desconhece a si mesmo e ao mundo, isto é fato. Mas, ao longo da vida, vamos conhecendo melhor e aprendendo a nos relacionar, não é? É aí que o problema se apresenta. O que Espinosa via por todos os lados era uma política da impotência. Então, naturalmente, ele se pergunta, por que será que os homens permanecem ignorantes?

Pensem na imensidão do mundo, com seus desastres naturais. Agora comparem com a pequenez humana, passível de morte besta, instantânea e imprevisível. Essa relação absolutamente desproporcional é a condição da vida humana. Com essa visão, compreendemos a busca por amparo à qual se lançam os homens. Nós todos procuramos crenças para viver melhor. É justamente essa brecha que nos é explorada, é o calcanhar de Aquiles de toda constituição política.

Oscilando sem parar entre medo e esperança, o homem procura se segurar em qualquer coisa. Ele se predispõe a acreditar no que melhor prometer a solução de seus problemas. Seja um Rei que o proteja ou um Sacerdote que o abençoe, quiçá ambos. Espinosa nos ensina a suspeitar desses promitentes, pois eles aprenderam a extrair poder da ignorância. A promessa de salvação na boca dos Teólogos é a realização de uma vida impotente para o povo, e os Tiranos só sabem governar sobre a impotência.

A Fortuna é o solo do qual brota a Política, mas sendo esta a relação de homens tomados pela ignorância, torna-se Teológico-Política, ou TeoPolítica, abreviação nossa. É desta forma que a instituição do governo a partir da ignorância se ampliará em um estado de impotência. Muito parecido com o que acontece com a Moral, que mantém o conhecimento sobre os afetos aprisionado a juízos alheios.

Por que Teo-Política? De onde surge o elemento teológico? A Teologia é justamente aquela que teoriza a contingência, que se esforça pela imaginação para dar sustento a interpretações misteriosas e justificativas místicas para a ignorância. “O homem é imperfeito”, “Deus é poderoso”, “O espírito do Mal”… entre outras bobagens.

A Teologia surge como operador da fortuna em favor de forças políticas específicas, que seguem a lógica da dominação e da obediência. O mote do obedecimento contagia o canto do povo que louva a Tirania como forma de governo. A ligação entre Teologia e Política, cujo exemplo maior são as teocracias modernas,  é o alvo de Espinosa em seu tratado.

Enquanto o homem pensar que a fortuna é o reino da contingência, ao invés de aceitar que é simplesmente o reino da ignorância, ele apostará no que melhor lhe prometer estabilidade. O poder que se estima é aquele que garante um pouco de paz dentro do caos, mas nunca questiona-se o custo dessa paz. A TeoPolítica – processo de rebaixamento das forças políticas e soberanas de cada cidadão na formação de uma massa amedrontada – é o preço a se pagar pela marcha da ignorância promovida por forças tirânicas, que não se resguardam de utilizar a Superstição como instrumento de dominação.

Texto da Série:

TeoPolítica

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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lluciano pinheiro
lluciano pinheiro
1 ano atrás

iteressanate, vez que a certeza de uma vida prospera acarreta a ignorância humana em desfavor da conquista de
paz e serenidade para uma vida aceitavelmente boa. Espinoza nos ensina a crer naquilo que está ao nosso redor e que muitas vezes não enxergamos. Vemos o presente sem avaliar o passado como construção do futur.