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Falamos brevemente sobre as diferenças entre o plano da Ética e do Teológico-Político, os dois livros mais conhecidos de Espinosa. Do lado ético, tínhamos a pura necessidade como base para o conhecimento e caminho para a liberdade. Do lado político, vimos a análise partir de outro ponto: a Fortuna estende o plano político porque é o campo onde os homens necessariamente ignoram a maior parte das causas que o cercam.

Por quê a tragédia? Por quê o terremoto? Por quê a erupção? Por quê a tempestade? Por mais que a razão alcance as causas de tais acontecimentos, ela nunca será capaz de suprimir esse campo da percepção da contingência, pois ele é o da nossa própria finitude.  Espinosa joga com duas questões, portanto. Estamos mergulhados na pura necessidade da Natureza, mas por mais aguçada que nossa percepção e conhecimento sejam, o controle sobre ela nos escapa.

Por quê a guerra? Por quê a fome? Por quê injustiça? Por quê a desigualdade? São questões que nos obrigam admitir alguma ignorância. A política está nesse plano de questões. A Ética forma o Sábio através do entendimento da necessidade, mas o Teológico-Político, como o avesso dos escritos espinosistas, enfrenta o Teólogo e o Tirano como exploradores da finitude e ignorância humanas.

Traço Geral da Filosofia de Espinosa

Apesar dos livros tratarem de questões diferentes, a filosofia é uma só e, embora se mostre de diferentes perspectivas, o seu plano de imanência é o mesmo. É por isso que podemos dizer que um dos traços gerais do pensamento de Espinosa é a luta contra a Superstição. Denunciar os abusos teológicos abre o espaço para criar conceitos visando a liberdade. É um mesmo projeto filosófico em dois tempos que se entrecortam. Espinosa interrompeu momentaneamente a escrita da Ética para tratar da TeoPolítica, pois sentiu a necessidade de enfrentar as barreiras que se colocam entre o homem e sua liberdade.

Deleuze dizia que a filosofia de Espinosa é uma denúncia das paixões tristes. Concordamos totalmente, entretanto, formulamos ainda de outra maneira. Espinosa faz de sua filosofia um questionamento da Superstição, enquanto prática que sustenta a ignorância e o medo como formas de dominação (no Teológico Político) e compreensão do mundo (na Ética). Ambos entendimentos entrelaçados, complementando assim um ao outro. Desmistificar a vida, despí-la de suas práticas ignorantes para então vivê-la em sua necessidade.

O que é a Superstição?

Espinosa não toma o conceito de Superstição contra o senso comum, ao contrário, mais do que definir um conceito inédito, ele quer encontrar as suas causas e suas funções. Sendo assim, podemos simplesmente partir do dicionário:

Superstição. Crença ou sentimento sem fundamento racional, que induz à confiança em coisas absurdas, ao temor a coisas inócuas e imaginárias e à criação de obrigações falsas e indevidas, sem relação alguma entre os fatos e suas causas.”

– Michaelis, Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa

Podemos desenvolver um pouco essa definição recuperando o sentido etimológico: do Latim, Superstitio; Super, sobre acima; Stare, estar, ficar. Ou seja, algo que se situa acima. Podemos entender ainda um pouco melhor se pensarmos no sentido histórico. Supersticioso na antiguidade era aquele que temia excessivamente os Deuses ou que os exaltava exageradamente.

Em uma frase, partindo dessa tripla definição juntamente com a ideia de contingência, podemos dizer que a Superstição é o estado de crença promovido no homem pela incerteza de um mundo que o supera. Entretanto, como já dissemos, mais do que um conceito inovador, interessa a Espinosa apontar quais são as suas causas, pois delas podemos investigar os usos e entender os efeitos.

Trata-se de perguntar o que causa a Superstição? Lendo o prefácio do Teológico Político, compreendemos ao menos três delas:

  1. Causa Ontológica da Superstição

A que ponto o medo ensandece os homens! A causa da qual nasce a superstição, que a conserva e a alimenta, é pois o medo. […] Os homens são dominados pela superstição enquanto dura o temor; o culto vão ao qual se constrangem com respeito religioso se dirige a fantasmas, às desorientações da imaginação de uma alma triste e medrosa”

– Espinosa, Tratado Teológico-Político, Prefácio

A causa primeira e fundamental decorre da própria ideia que fazemos do mundo, ainda mais na relação com os outros. A Fortuna, campo da ignorância enquanto o percebemos como contingência, dizendo da maneira mais simples possível, nos dá medo. As infinitas possibilidades que um dia carrega nos fazem temer. Que tragédias se anunciam para hoje?

A Fortuna, como pura incerteza, projeta um campo afetivo de dois pólos: medo e esperança. Mas cuidado, não nos enganemos a pensar que são opostos em valor, “a esperança é boa e o medo é ruim”. Em realidade, esses dois afetos são apenas condições de propensão em relação ao que o futuro nos reserva. Se as condições prometem alegria temos esperança, se prometem tristeza temos medo.

Essa propensão pode até se concretizar, mas acaba retornando, e muitas vezes como o seu oposto. A expectativa de que algo bom aconteça pode ser correspondida, o que muitas vezes nos faz ter medo de não ter a mesma sorte das próximas vezes. Ou ainda, o medo pode se concretizar e só saberemos nos segurar à esperança de que o problema passe. Ou seja, medo e esperança são duas faces da mesma moeda, inúmeras vezes jogada para cima, às vezes em queda interminável onde a vemos rodar e rodar e rodar…

O resultado inevitável de uma vida dominada pelo medo e pela esperança é a prática supersticiosa. Assopramos a mão antes de jogar a moeda para cima para quem sabe influenciar no resultado, é só o que esses afetos nos permitem fazer. Assim, o mundo em perpétuo vir-a-ser é a causa ontológica da Superstição porque nos amedronta. Somos arrastados a acreditar em qualquer coisa que nos salve, como quem se segura em qualquer tronco ao ser levado pela correnteza.

  1. Causa Modal da Superstição

Vemos que os mais propensos a todos os gêneros de superstições não deixam de ser aqueles que desejam sem medida os bens incertos”

Espinosa, Tratado Teológico-Político, Prefácio

À causa ontológica soma-se a causa modal. O homem é um modo da Natureza e, como Espinosa aponta na Ética, sua essência é Desejo. Entretanto, em que condições se encontra esse desejo? A que se liga o desejo da maioria? Que bens são imaginados como valorosos? Olhando rapidamente para a história percebemos, sem muito esforço, o que costuma atrair os homens: riqueza, honra e concupiscência.

Colocando de lado os desejos de conhecimento, potência e segurança, que Espinosa considera legítimos e interessantes, a maioria volta-se para a conquista dos bens materiais, do poder sobre os outros e entrega-se sem medida aos prazeres. Aí encontramos a segunda causa da superstição, esses bens são justamente os mais incertos! Recupera-se a velha distinção Estóica (e Cínica!) entre o ter e o ser. O que temos podemos perder, o que somos não.

Os homens entregam-se aos desejos mais baixos sem mesmo perceber que justamente esses são os que mais variam. Espinosa jamais condena tais desejos materiais, mas ele chama atenção para a sua inconstância e questiona o fato de que eles norteiam a busca da maioria. Essa segunda causa não deixa de ser ontológica, mas agora passa pelo desconhecimento do homem sobre si mesmo. Ao mundo como causa somamos agora a própria disposição humana.

  1. Causa Política da Superstição

Se o grande segredo do regime monárquico e seu interesse maior é o de enganar os homens e colorir com o nome de religião o medo que lhes deve dominar, a fim de que combatam por sua servidão, como se se tratasse de sua salvação […]; bem ao contrário nada se pode conceber nem tentar de mais aborrecido em uma república livre.”

– Espinosa, Tratado Teológico-Político, Prefácio

É só nesse terceiro momento que chegamos ao ponto mais importante. É só como causa política que a Superstição consegue se manter, pois na sua ontologia e materialidade ela pode ser enfrentada. Apesar do reino da fortuna não poder ser completamente abolido, nem o desejo ser absolutamente contido, o homem encontra medidas e aprende a se relacionar com o mundo e consigo, não é? Ao menos essa é a aposta espinosista. Mas então por que ele permanece supersticioso?

Deve haver alguma força que mantém a Superstição. É o que Espinosa percebe na política, enquanto esta é dominada por interesses levianos. A razão pode não ser capaz de controlar totalmente a mutabilidade da vida e do desejo, mas aos poucos ela encontra os meios pelos quais compreende e aprende a se relacionar. Então deve haver uma classe interessada na ignorância promovida pelas práticas supersticiosas, pois estas se mantém a despeito de qualquer racionalidade. Espinosa recupera Quinto Cúrcio, historiador romano:

Nenhum meio de governar a multidão é mais eficaz do que a Superstição”

Quinto Cúrcio, História de Alexandre Magno

A quem interessa que se mantenham amedrontadas as massas? Àqueles que vivem às suas custas! A Superstição é um método de governo. O desespero cria homens ávidos pela autoridade, prontos para desejar Deus como um Rei absoluto “acima de todos” e o Rei como um Deus “acima de tudo”.  

É justamente a classe dos Sacerdotes e Monarcas, interessados na dominação e na obediência do povo, que percebem a utilidade da Superstição. Espinosa publicou o Teológico-Político em 1670, mas percebemos que muita coisa permanece igual, 350 anos depois. Semeia-se a ignorância para colher obediência.

Tomar o lugar da razão – perigosa porque questiona e interfere – é muito mais fácil se os homens estiverem predispostos a condená-la de antemão! Para os interessados em manter a dominação, é bom que o povo acredite que seu representante é um messias, enviado dos céus como resposta às correntes de oração. A Superstição rebaixa a razão porque aposta em práticas imaginárias delirantes e dedica o máximo esforço em causas ineficientes. A Superstição não muda nada, apenas dá força ao que já existe.

Conclusão

De um mundo caótico, de um desejo desmedido, de um interesse político, brota a Superstição como força de dominação. Ela toma o lugar da Razão, que levaria à liberdade, e faz a ponte entre o estado de ignorância e o estado de impotência. Os homens passam a acreditar que as entranhas do animais carregam o destino, que a palma da mão traz presságios, que os planetas influenciam suas vidas mais do que suas próprias ações! E as causas reais seguem despercebidas e inquestionadas…

Espinosa não pôde tolerar este fomento à Superstição, pois condenar a Razão é desprezar a nossa vis nativa, nossa disposição própria ao conhecimento e à liberdade. Para pensar uma República Livre, verdadeiramente democrática, precisamos recuperar as práticas efetivas e combater as imaginativas. A conclusão não pode ser outra: a Superstição é uma forma de dominação posta em prática por interesses obscuros, que fazem o homem combater por sua servidão como se se tratasse de sua liberdade.

Texto da Série:

TeoPolítica

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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4 Comentários
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FRANCISCO ALVES DE MEDEIROS NETO
FRANCISCO ALVES DE MEDEIROS NETO
2 anos atrás

por que, Espinosa não á trata a razão como “problema filosófico”? ou seja, como momento essencial do pensar filosófico.

Miguel Garcia
Miguel Garcia
2 anos atrás

Seus escritos me deixam triste de beleza, feliz de perturbado e muito grato por tudo isso: obrigado por existir, resistir e fertilizar ideais tão iluminadoras, energizantes e vitais. Se eu fosse capaz para tanto, patrocinaria seus projetos todos sozinho, de tanto bem que essas leituras causam em mim. Obrigado mais uma vez! Reverências.