Estou totalmente estupefato, maravilhado! Tenho um precursor, e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa: que eu seja agora impelido a ele, foi um ‘ato instintivo’. Não só sua tendência geral é a mesma que a minha – fazer do conhecimento o mais potente dos afetos -, como me reencontro em cinco pontos capitais de sua doutrina; este pensador, o mais fora da norma e solitário, é-me nesses aspectos justamente o mais próximo […] In summa: minha solidão, que, como sobre o cume de elevadas montanhas, tantas e tantas vezes tornou minha respiração difícil e me fez sangrar, é, ao menos agora, uma ‘dualidão'” – carta de Nietzsche a Overbeck, 30 de julho de 1881

Untitled-3Nietzsche e Espinosa são dois filósofos essenciais para esta página, seus pensamentos atravessam os textos quase que integralmente. Não diríamos que são onipresentes, mas certamente muito importantes, e por isso vale a pena investigar como eles se relacionam.

Cada um usa métodos diferentes para se expressar. Espinosa se utiliza do método geométrico, procurando encontrar as essências que remetem apenas a si mesmas. Já Nietzsche utiliza o método genealógico, perguntando pelo valor dos valores. Foi Deleuze quem mais fortemente viu estas relações, as implicações destes dois filósofos o levou a trabalhar com suas teorias. Aqui no Brasil temos grandes representantes também, como Peter Pal Pélbart, Cláudio Ulpiano e Luiz Fuganti.

A grande questão é que Espinosa cola o homem novamente na imanência, suas ideias implicam abolição completa de qualquer valor superior: nem Deus, nem Estado nem qualquer outra forma de transcendência. Já Nietzsche, apesar de procurar superá-lo, elogia Espinosa como um de seus predecessores e leva suas conquistas um passo adiante, inocentando completamente o devir. Dentro de suas teorias, várias aproximações e afastamentos são possíveis; dentre elas, escolhemos cinco semelhanças:

Negação do livre-arbítrio: A ilusão da separação entre o possível e o necessário é um artigo de fé que impregnou nossa filosofia. Para Espinosa, somente os ignorantes acreditam no livre-arbítrio, exatamente porque ignoram as causas do seu querer. Tudo no mundo é necessário, não há distância entre o dever-ser e a realidade, portanto, entender claramente o que é necessário é o caminho para a liberdade: liberdade da necessidade. O medo, a insegurança, nos levam à impotência e à superstição, quanto mais imagino um livre-arbítrio para escolher, mais me escravizo. A verdadeira liberdade é a proximidade máxima de nossa potência, com nossa capacidade de acontecer, o conhecimento da necessidade da potência de se efetuar. O livre-arbítrio foi usado desde sempre – por padres e juízes – para condenar o homem. Culpar o homem por aquilo que se é! Mas quem pode nos julgar? “Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo” (Nietzsche). Só aquele que acha que poderia ter sido diferente perde seu tempo pensando sobre o livre-arbítrio.

Negação da teleologia e das causas finais: se o homem não possui livre-arbítrio, age necessariamente, então não podemos julgá-lo caso não se oriente para sua finalidade. Mas há finalidade? Outra denúncia de Nietzsche e Espinosa, para quem o anti-finalismo era integral. A ignorância das causas e efeitos gera a superstição. O medo e a insegurança nos torna cativos de entidades supra-sensíveis que supostamente regulariam o mundo. O raciocínio final e absolutamente fantasioso é este: “Deus fez os homens para servi-lo e a natureza para servir ao homem“. Um mundo antropocêntrico cria um Deus e uma natureza utilitaristas. A impotência busca asilo no finalismo, e o fraco espera recompensas de Deus por seu bom comportamento. Mas Deus não age por fins, age por sua própria potência que se confunde com sua essência: “Deus, ou a natureza” se misturam, os fins já se encontram nos meios, a causa se mistura com o efeito. A lógica divina, em Espinosa, confunde-se com a imanência absoluta. Ou o mar de forças, de Nietzsche. Não há céu, nem inferno, nem um Deus para dizer se o que fizemos foi certo ou errado; o devir explicado por ele mesmo, como fim em si mesmo.

Negação da ordem moral do mundo: o poder teológico e político, acreditem ou não, até hoje se misturam; mesmo com a morte de Deus, mas o trono ainda está vago e é ocupado por toda sorte de absurdos, um deles é a moral. “A moral induz o indivíduo a tornar-se função do rebanho e a não atribuir-se valor a não ser como função […] a moralidade é o instinto de rebanho no indivíduo” (Nietzsche, Gaia Ciência, §116). Ordem Moral do Mundo e senso comum se misturam, é o desejo submetido à forma, é a impotência de agir que se sujeita a valores que não são seus. Soa absurdo aos ouvidos iludidos, ou falsamente abastados, que esta ordem imposta de fora para dentro possa não trazer satisfação. Mas a nós, é preciso uma transvaloração dos valores, seguir novos caminhos, não na perspectiva de uma razão reta e infalível (talvez uma razão inadequada), mas sim através da pura potência. Parar de julgar, parar de tentar controlar o devir. O homem se refugia naquilo que o limita, sua moral protege mas o enfraquece e lhe tira as intensidades! Negar a ordem moral do mundo é abrir as portas para as potências, aumentar as intensidades, habitar os devires: permitir ao homem tornar-se o que é.

Negação do desinteresse: as filosofias de Espinosa e Nietzsche são a mais pura  das afirmações, logo conclui-se pela abolição de qualquer forma de niilismo, como o asceticismo e o desinteresse. A rigor, o desinteresse é uma mentira, apenas se quer aquilo que está muito distante, em outro mundo, tão longe que é nada. Mas todo querer é uma força que se expressa, então afirma a si própria na expressão. Espinosa resumiu perfeitamente o argumento para negar o desinteresse ao desenvolver o conceito de conatus: “toda coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser” (Ética III, prop. 6). Faz parte da essência de qualquer coisa o esforço para continuar em si, e mais, o esforço para fazer mais conexões, aumentar sua perfeição e sua potência sendo capaz de experimentar e afetar mais coisas. Mas o desinteresse não é egoísmo puro, passamos do “eu” ao “nós” sem nenhuma necessidade de imposição moral; a coordenação das forças com outros indivíduos que nos potencializem faz parte da ideia de afirmação. E também egoísmo e desinteresse são coisas diferentes, o Ego é fruto do poder e da sujeição, o paradoxo em Nietzsche está em um “egoísmo sem ego”; recusar o ego, a unidade, significa afirmar a pluralidade de forças que constitui o sujeito. À força, só interessa afirmar a si mesma, se tudo é força, então não há desinteresse.

Negação do mal: a negação do mal é a consequência da crítica da moral e dos valores. O mal seria aquilo que foge à forma, o singular que não se submete. Não existe mais bem e mal, mas isso não significa prescindir de qualquer valor. Espinosa ainda nos ensina sobre os bons e maus encontros (veja melhor aqui): bom-encontro é aquilo que aumenta minha potência e minha sensação de felicidade, mau-encontro é aquilo que diminui minha potência, gerando tristeza. Não há niilismo algum, apenas os critérios de avaliação são o próprio encontro. Mal é o mau-encontro, e só. E isso da perspectiva singular do homem porque na natureza como um todo só há composição, não há maldade. Como disse Nietzsche, “para além do bem e do mal não significa para além o bom e do ruim” (Nietzsche, Genealogia da Moral); ainda se fazem valorações, mas agora sempre pensando na potência e não em um critério exterior e moral para julgar as coisas.

Apesar das cinco proposições serem expostas como negativas, no fundo a afirmação é muito maior. Negar a transcendência, negar o niilismo, negar a negação é, no fim das contas, afirmar a vida como único critério de avaliação, para além de todas as fórmulas supra-mundanas. É claro que cada filósofo cria seus próprios conceitos e tem toda uma particularidade para tratar destes assuntos. Identificar Espinosa com Nietzsche seria absurdo, mas as aproximações são muito esclarecedoras e didaticamente interessantes.

Nestes filósofos, o conhecimento é o mais potente dos afetos, dando ferramentas para o homem superar a si mesmo. Com Espinosa e Nietzsche, razão e emoção se fundem, se aproximam até tornarem-se indistinguíveis. A filosofia não é mais uma fuga para o mundo das ideias, mas sim uma paixão que se sente e que busca os caminhos mais profundos para se chegar mais alto. Quebra-se a dicotomia razão/emoção e o conhecimento se torna o mais poderoso dos instintos, este movimento tem um caráter ético, a busca da liberdade, da afirmação da própria potência. Poucos disseram Sim! como Espinosa e Nietzsche.

Nietzsche Espinosa

Texto da série: Sobreposições e Justaposições

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

20 comentários

  1. “Soa absurdo aos ouvidos iludidos, ou falsamente abastados, que esta ordem imposta de fora pra dentro possa não trazer satisfação.” Uma verdade surda… Parabéns, um texto claro, entendível e gostoso de ler..

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  2. Esse fechamento ficou ótimo! Parabéns!

    Nestes filósofos, o conhecimento é o mais potente dos afetos, dando ferramentas para o homem superar a si mesmo. Com Espinosa e Nietzsche, razão e emoção se fundem, se aproximam até tornarem-se indistinguíveis. A filosofia não é mais uma fuga para o mundo das ideias, mas sim uma paixão que se sente e que busca os caminhos mais profundos para se chegar mais alto. Quebra-se a dicotomia razão/emoção e o conhecimento se torna o mais poderoso dos instintos, este movimento tem um caráter ético, a busca da liberdade, da afirmação, da própria potência. Poucos disseram Sim! como Espinosa e Nietzsche.

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  3. Realmente o que esses “monstros” da filosofia têm de ideias em comum é bastante interessante…Já desconfiava dessas semelhanças entre eles mas nunca tinha feito esse paralelismo…Muito bem elaborado.Está de parabéns…

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  4. Bom texto, bem sucinto também. Tenho acompanhado o site, lido diversos de seus artigos e gostando bastante do que tenho encontrado. Acredito que este eixo Spinoza-Nietzsche-Deleuze pelo qual trafegam se faz necessário por ser uma linha de raciocínio tão rara e ao mesmo tempo tão libertadora. Porém, acho que em alguns momentos torna-se um pouco maçante a maneira com que afirmam estes pensadores, soberanos por sobre os juízes e padres do mundo. Digo isso não para defender tais juízes, mas porque em dados pontos o texto é enfraquecido por sua constante auto-afirmação. Entendo que para ler sobre as tendências contrárias é só virar para outro blog, outro auto-ajuda, outra ideologia ou religião… Mas será que pro texto crescer não faltava um pouco de conflito com o outro lado, ao invés do massacre? Aguardo por um artigo que favoreça um pouco Lacan, ou que critique Nietzsche, ou que traga um pouco de contradição para a mesa… Para que possamos começar a ler o artigo sem sabermos de sua conclusão.

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  5. Rafael, tenho um certo medo de falar do Krishnamurti e ser mal compreendido. É um pensador oriental extremamente distorcido por pessoas que querem ver nele um guru religioso. Ele é o exato oposto. Ficarei feliz se você der uma lida nisto:

    http://www.gefil.com.br/art_kri.htm

    [E pode me dizer se eu estiver falando bobagem, ok? Não sou filósofo. Sou artista, gente tentando perceber a vida e gosto muito do seu site, fico feliz com o diálogo].

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    1. “Será que o pensamento, fundamentalmente, basicamente, proporciona segurança psicológica? O pensamento tem o seu lugar, mas, quando o pensamento acha que pode dar segurança psicológica, então ele está vivendo na ilusão. Em seu desejo de obter completa segurança, o pensamento criou uma coisa chamada deus, e a humanidade agarra-se a essa ideia. O pensamento é capaz de criar todo tipo de ilusão romântica. E quando a mente, psicologicamente, busca segurança em um dogma da Igreja, em alguma outra alegação dogmática, ou outra coisa qualquer, ela está buscando segurança na estrutura do pensamento.
      O pensamento é a resposta da experiência e do conhecimento, armazenados no cérebro como memória; tal resposta, portanto, sempre se move a partir do passado. E há, porventura, segurança no passado?”

      Jiddu Krishnamurti
      The Wholeness of Life, p 160

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  6. Muitos erros de escrita… implicar é transitivo direto, não se usa “implicar na”. “As aproximação”; “não há distância entre o dever-ser e mim” – mim?… Enfim, diversos erros de ortografia e gramática, uma revisão cai bem. O blog é bom. Bjs

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    1. Helena, arrumamos os erros que você apontou. Se encontrar outros pode nos avisar. Ainda não temos revisor, se você se colocar a disposição para nos ajudar, ficaremos muito gratos.

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      1. Oi, Rafael. Eu me coloco à disposição do site para esse tipo de revisão. Posso apontar onde corrigir sempre que o site publicar um artigo–ou antes, conforme for da sua conveniência. Mas não se preocupe, à primeira vista esse “erros” não comprometem a leitura dos seus textos, menos ainda o encantamento que eles provocam na gente 🙂 Grande abraço.

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        1. Cintia, muito legal você se oferecer para ajudar a gente! você poderia nos mandar um e-mail para decidirmos melhor isso? Obrigado! É só clicar lá na aba de contato.

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