NietzscheNietzsche merece um dos postos mais altos de contra-autores da psicologia. Com seus escritos o mundo veio abaixo (quase literalmente). Quebrar com ídolos e anunciar novos valores pode ser também nossa tarefa aqui neste espaço. Então, juntamente com Nietzsche, vamos desmontar a linguagem e a comunicação para remontá-la ao fim deste texto com algumas das características que achamos mais interessantes.

Já desmontamos o primado da consciência em outro texto, e sabemos da importância disso. Neste ponto, a modernidade não pode passar sem Nietzsche, Freud sabe muito bem disso. A consciência não pode mais ser pensada com atributo essencial do ser humano, ela é nova demais, um instrumento que ainda precisa ser afinado (ou será que não?). A filosofia de Nietzsche aponta novos caminhos: o corpo, as vontades, o conjunto fisio-psicológico. Os pensamentos brotam, isto está claro, eles vêm e percebemos que somos apenas uma vereda pela qual eles passam.

Mas o homem moderno está muito apegado ao seu Eu. Este já tornou-se sua condição de veracidade: “eu penso, logo existo”. O apego à verdade tornou-se nosso último instrumento de fé. Ou seja, é preciso quebrá-la também. A que ponto queremos somente a verdade? Em que medida temos medo de enganar e sermos enganados? A vida que degenera está repleta de ressentimento, por isso pede por asilo e descanso; mas é preciso deixar a conservação tão logo a vida encontre meios para superar-se, não devemos apegar-nos à vida fraca. Para nós, a verdade mata o devir, ela ainda é necessária tanto quanto a inverdade, a ilusão. A verdade é tão somente a sensação de que a vontade de potência aumenta.

A Falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranha. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo cultiva a espécie […] Sem medir a realidade com o mundo puramente inventado do absoluto, do igual a si mesmo, o homem não poderia viver – que renunciar aos juízos falsos equivale a renunciar à vida, negar a vida. Reconhecer a inverdade como condição de vida: isto significa, sem dúvida, enfrentar de maneira perigosa os habituais sentimentos de valor” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal

Tal como pela consciência e pela verdade, somos também seduzidos pela linguagem. Não acreditamos no mundo supra-sensível, mas ainda conservamos piamente o reino das ideias: “Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática…” (Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos). A linguagem gera estabilidade, o mundo dos signos ainda é um altar com velas acesas. Mas a unidade das palavras não garante a unidade da coisa. Nos perdemos por entre conceitos, substantivos, adjetivos, regras e Leis. O criador se ajoelhando perante a criação. Eu faço uma escada, mas depois construo um altar para idolatrá-la. A liguagem não pode ser um ponto de chegada, ela deve ser porta de entrada para o plural. Esquecemo-nos de que o essencial é o singular, e só pode ser reconhecido em seu devir. A linguagem jamais conseguirá expressar o que é singular.

A importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor […] O criador da linguagem não foi modesto a ponto de crer que dava às coisas apenas denominações, ele imaginou, isto sim, exprimir com as palavras o supremo saber sobre as coisas” – Niezsche, Humano Demasiado Humano §11

Para que então serve a comunicação? A comunicação surgiu para intermediar dois seres humanos absolutamente singulares. Devido à pressão do ambiente, os perigos, os riscos da natureza, nos juntamos em grupos e bandos, nos tornamos gregários. É exatamente isso: A comunicação visa a gregariedade. Todo este movimento nasce em conjunto: linguagem, comunidade, consciência. Comunicar é perder o singular, é tornar comum, é fazer uma intersecção entre um e o outro. Mas nós não gostamos do que é médio (veja aqui). Todo tornar-se consciente já é de alguma forma tornar-se prisioneiro, tornar fraco. Perder a intensidade já é perda da singularidade, facilmente traduzível em palavras.

Vivemos em uma sociedade de massas, nos tornamos rebanhos ansiosos por palavras de encorajamento, signos de aprovação. Os meios de comunicação o tempo todo empurram um jeito singular de ser, mas no fim do dia todos estão vendo televisão e sonhando os mesmos sonhos. A linguagem gregária força à repetição, não à criação. Não se trata de indústria cultural, porque não há um “verdadeiro ser humano” por debaixo daquelas roupas de marca. Trata-se muito mais de construções de indivíduos tristes, fracos e obedientes. A própria natureza do homem moderno é um projeto que falhou, um homem sem intensidade, sem vida. Um tipo moderno caracteristicamente: “raso, ralo, relativamente estúpido, garal, signo, marca de rebanho que, com todo tornar-consciente, está associada a uma grande e radical corrupção, falsificação, superficialização e generalização” (Nietzsche, Gaia Ciência, §354). É necessário entender que a indústria cultural é real, mas não esconde a verdade, ela comunica, no exato sentido do termo, torna tudo um caldo sem gosto, uma mentira desinteressante, sem vida, sem potência, sem alegria.

Estamos em perigo, é  linguagem que liga a filosofia à conservação. Mas deveríamos então nos isolar em uma ilha deserta e não falar com mais ninguém? Afinal, a comunicação é boa ou ruim? Ela aumenta ou diminui nossa potência? Depende… (e aqui temos como aliado Espinosa). Assistir Datena no fim das tardes nos causa medo, deste modo não saímos de casa e nos tornamos reclusos e assustados (veja aqui). Manoel de Barros nos deixa felizes com suas poesias e nos propicia a visão de um mundo riquíssimo, cheio de possibilidades e invenções que queremos explorar e descobrir.

O fato de o artista estimar a aparência mais que a realidade não é objeção a essa tese. Pois ‘a aparência’ significa, nesse caso, novamente a realidade, mas numa seleção, correção, reforço… O artista trágico não é um pessimista” – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

Nietzsche subverte conceitos e cria novos valores com os escombros de um mundo que está desabando por si só. Não é preciso muito para ver que a linguagem é um fardo que carregamos, a consciência é uma parte mínima do ser, e a verdade é uma mentira. Mas o que fazemos com isso? Ora, se “conhecer a si mesmo” é “perder-se de si mesmo“. Ou melhor: conhecer a si mesmo é prender-se a si mesmo (ditadura da Identidade), então o sábio não é aquele que se conhece, mas sim aquele que se cria. O conhecimento nos dá o que já está dado, mas é sempre preciso criar para além disso. Como disse Deleuze: criar novos conceitos, criar novas funções, criar novas sensações. A mentira é um trampolim para novos modos de vida criativos e intensos! A arte expressa uma superabundância de forças. É nela e com ela que é possível experimentar novas formas de se comunicar.

A linguagem está sempre abaixo da realidade. Não mais tornar comum, devemos agora criar espaços comuns de expressão. O mundo não tem apenas um sentido, ele se diz de várias formas. Há possibilidades infinitas de interpretação. Comunicação como forma de geração de novos sentidos. Construir pontes, elos de ligação, este era um grande objetivo de Nietzsche. Como o sol desperdiça sua luz, ainda há muitas linguagens que não percebemos.

A língua que o casal de namorados fala não é a mesma que uma mãe conversa com seu filho, e é aí que está a beleza da comunicação. Dois grandes amigo de infância conversam com uma linguagem muito mais própria que o passageiro e o cobrador de ônibus. A orquídea e a abelha conversam quando uma pousa na pétala da outra, mas não são nem ao menos do mesmo reino, uma é vegetal e a outra é animal. O canto multiplica a força da palavra, e também a poesia. Mas para falar de poesia eu prefiro chamar alguém que é especialista:

Despalavra – Manoel de Barros

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.
Que os poetas podem pré-coisas, pré-vermes, podem pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem comprender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.
Manoel de Barros
Manoel de Barros

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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