A alegria é um dispositivo que nos vincula ao mundo, é indissociável do comum, da vida imanente” – Antonio Negri, De Volta, p. 45

A alegria, tal como a tristeza é também um afeto político. Temos uma linha ascendente, pensando em Espinosa, que vai da tristeza à alegria. Sentimos nosso conatus aumentando neste processo: escapamos do desamparo, do medo e até mesmo da esperança. Transformar a tristeza em alegria, o ódio em amor, não é este o grande objetivo de uma produção micro(bio)política? Nossa principal arma neste processo é a alegria, ela serve como resistência contra todas as paixões e afetos tristes!

A instituição da felicidade é assim um projeto não só político mas também ontológico. A cada aumento de nosso poder, tornamo-nos diferentes, enriquecendo o que somos, expandindo o ser social” – Negri & Hardt, Bem Estar Comum, p. 413

A sábia experiência da política não nega a natureza dos homens, seria tolo fazê-lo. Muito pelo contrário, uma Ciência dos Afetos busca entender qual a força dos afetos e encontrar os meios, os elos para melhor articular cada singularidade, satisfazendo ao mesmo tempo interesses individuais e coletivos. Agimos em função do desejo, então, se agimos, é sempre buscando a felicidade e a expansão, não o constrangimento e a tristeza. Temos assim um objetivo claro e bem definido: instituir a felicidade!

A alegria é na realidade resultado de encontros alegre com outros, encontros que aumentam nossos poderes, e da instituição desses encontros de tal maneira que perdurem e se repitam” – Negri & Hardt, Bem Estar Comum, p. 415

Composition - Pavel Filinon
Composition – Pavel Filinon

Porque ainda pensamos no manifestante e ativista sempre com raiva? Se ele sai às ruas para causar algum tipo de mudança, ele carrega consigo sua esperança e seu desejo de bons encontros! Já dizia Foucault que não é preciso ser triste para ser militante! Ora, sinceramente, os acomodados que ficam em casa e os policiais carrancudos nos parecem muito mais tristes e mal-humorados.

Será que ainda temos condições de enfrentar o que está acontecendo com a leveza que só a alegria pode nos dar? Não estamos mais preocupados com o futuro da revolução, mas sim com um devir-revolucionário. Queremos uma resistência ativa, claro! E se não saímos às ruas, então nosso próprio modo de vida, de expressão, precisa mostrar um projeto de instituição da alegria que se materializa diariamente diante de nosso olhos.

Queremos aliados. Queremos conhecer pessoas, outros pontos de vista, ouvi-los. Já perceberam como nossos laços sociais são uma piada de mau gosto? Onde estão os laços sociais? Atualmente eles acontecem apenas com personagens de novela, jogadores de futebol ou em comentários nas redes sociais. Nossa busca pelo afeto (bio)político da alegria não deve ser confundido com o pão e circo que nos hipnotiza e impede de agir. Se saímos de casa é para dar a cara a tapa, para entrar em contato com a diferença.

Por isso precisamos tomar cuidado porque a alegria da qual falamos é a ativa, não a passiva. Queremos instituir a felicidade, torná-la parte de nosso cotidiano, sermos causa dela. Aqui a diferença entre o prazer que amortece e o desejo que cria conexões e nos alimenta no processo. Estamos falando de uma felicidade que ama pensar, uma alegria racional, um processo desejante que aumenta a capacidade de afetar e ser afetado. A alegria ativa como afeto (bio)político não quer nada mais do que crescer e se multiplicar!

Mas chegam os moralistas com suas leis e conselhos. Nos dizem que a própria alegria é perigosa! Os sentimentos humanos são tomados como imperfeições e vícios, e acusam a natureza humana de ser imperfeita e inconstante. Assim, eles prescrever regras de conduta e criam normas para controlar nosso comportamento. A Ética de Espinosa segue para além desta concepção: não condenar nem julgar os afetos, mas entendê-los, foi o que buscou o filósofo holandês. Por serem ignorantes do que podem os afetos, eles concluem que a natureza humana é decaída e viciosa. Mas nós sabemos que inconstante é o medo e a esperança que eles nos impõe! A alegria cria raízes fortes que são difíceis de serem arrancadas!

Filosofia da afirmação pura, a Ética é também filosofia da alegria que corresponde a essa afirmação” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, 188

Fórmula do Cosmos, por Pavel Filinov
Fórmula do Cosmos, por Pavel Filinov

Muitas pessoas pensam nossa sociedade pelo viés da Lei, da prisão, da justiça e do medo. Mas nós preferimos seguir uma concepção ampliada de corpo político. Não estamos preocupados se cruzamos ou não a linha tênue que separa o lícito do ilícito. A lei é sempre menor que a potência e a limita. A potência do ser pensa em  fluxos e linhas, não em barreiras, recalques e divisórias.

A lei é uma linha segmentar que impede fluxos. Mas alegria não respeita propriedades, ela pula muros e fura todas as linhas que impedem os fluxos de se conectarem. O homem se submete à lei porque sempre poderia ultrapassá-la. A lei, pretensamente sagrada, é sempre instrumento na mão dos poderosos, sempre envolve o pior de nós mesmos e, como instrumento moral, é sempre usada para subjugar o homem.

Queremos viver de forma que a vida sempre supere as condições de isolamento e de luta de todos contra todos. Mas o pacto não pode ser feito de maneira negativa, utilizando-se do medo e da superstição. Viver é mais que sobreviver. Um laço deve ser feito, e mantido, de maneira positiva, criativa, apenas para fins de aumentar a potência dos indivíduos singularmente e em conjunto. Não conhecemos outro caminho senão a alegria e o amor, afetos ativos os quais nós mesmos produzimos.

Só saberemos o que pode um corpo se mergulharmos neste processo. A alegria cria sendas que não estavam expostas anteriormente, abre possibilidades que não eram sequer imagináveis, ela recicla nossa capacidade de pensar e revigora nossa capacidade de sentir. Tudo isso a ponto de nos perguntarmos, “onde está aquela alegria que entorpecia e nos deixava estáticos?“. Sim, deixamos de ser espectadores do mundo e da vida para fazer parte, ser causa adequada de nossa própria existência. A alegria ativa nos abre para um processo ativo de mutação, transformação.

A alegria não apenas a nós mesmos, ela muda o mundo. Ela é um bem coletivo. E aí está a beleza do comum, quando se divide ele se multiplica. Nada se perde, tudo se transforma. Proporcionalmente, o mundo continua igual, mas o nosso modo de agir sobre ele e de nos relacionar muda completamente. Usar a régua da felicidade, a medida do envolvimento, é um caminho para encontrar afetos muito mais intensos. Não queremos uma linha reta do ponto A ao ponto B, queremos a envergadura do sorriso, o ângulo do ativista que mais que mudar a realidade, mas é também capaz de mudar a si mesmo no processo.

É absolutamente necessário pular no real, atirar-se nele, mexer-se lá dentro, pois é a única maneira de mudar o mundo. A vida é apenas isso: mudar o mundo, transformá-lo, inventá-lo, revolucioná-lo” – Antonio Negri, De Volta, p. 220

Disse Nietzsche, em seu Zaratustra: “Desde que vos tornastes novamente alegres! Em verdade, todos vós desabrochastes: parece-me que flores como vós necessitam de novas festas” (p. 300). O processo ativo de tornar-se dono de si mesmo, de conhecer a si mesmo, de aprender na luta e na conquista é o que justifica o próprio processo de instituição da alegria.

Procuramos aliados, para novas festas, novas lutas, e a instituição de novos valores! As forças que nos constituem querem isso e nada mais. Esta alegria é a força vital afirmando-se em sua plena capacidade. Ela é este processo de afirmação que multiplica o mundo e a nós mesmos. Sendo assim, podemos concluir: toda alegria quer e institui ativamente a eternidade.

A alegria é a única afecção passiva que aumenta nossa potência de agir; e só a alegria pode ser uma afecção ativa. Reconhecemos o escravo por suas paixões tristes, e o homem livre por suas alegrias, passivas e ativas. O sentido da alegria aparece como sendo o sentido propriamente ético” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 188

texto da série: Afetos (bio)políticos

Fórmula da Revolução, por Pavel Filinov
Fórmula da Revolução, por Pavel Filinov

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

6 comentários

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s