Até mesmo o sol penetra nas latrinas, mas não é contaminado por elas – Diógenes de Sínope

Os Cínicos mudam o valor da moeda, isso significa que eles pegam as velhas leis e viram de ponta cabeça. Um filósofo precisa incomodar, magoar, impressionar, caso contrário a filosofia vira algo inofensiva. Se os gregos, juntamente com Platão, para viverem bem e encontrar a verdade pregavam uma “vida sem misturas”, os cínicos se esforçavam para mostrar, vivendo na pele, o que era uma vida realmente sem misturas.

Platão dizia que uma das características da verdade era ser absolutamente pura, ou seja, nada poderia contaminá-la. Portanto, para encontrá-la era necessário se esforçar para viver uma vida incorruptível, virtuosa, tal como no mundo das ideias. Uma vida sem misturas significava uma pureza de espírito, não ceder à concupiscência, desprender-se de toda desordem do mundo, do caos, da agitação, tornar-se indiferente aos desejos terrenos. A Verdade, aletheia, é idêntica a si mesma, não se perverte com o mundo, o filósofo precisa ser igual. Sendo assim, a vida sem misturas é uma vida independente e indiferente às riqueza e carnalidades.

Mas Diógenes ouviu do oráculo de Delfos dizer a ele:”muda o valor da moeda“. Isso significa levar os ensinamentos ao seu limite, até torná-los, de certa forma, escandalosos, performáticos. Um pensamento pode tornar-se tão afiado a ponto de fura ideias cheias de tolice. Se Sêneca dizia para de vez em quando comer menos e nos vestir com roupas mais simples, Diógenes assume a pobreza total e irrestrita! Até mesmo Sócrates fica para trás: ele tinha uma casa, uma esposa, admiração. A vida sem mistura dos Cínicos é uma pobreza real, ativa e infinita.

Diógenes jogando fora sua cuia, por Salvator Rosa
Diógenes jogando fora sua cuia, por Salvator Rosa

Real porque não fica com meios gestos e meias palavras. Diógenes de Sínope tinha apenas um cajado, um manto, uma bolsa e um cantil. Conta-se que também tinha uma cuia, mas jogou-a fora ao ver uma criança tomando água com as mãos. Os Cínicos não vivem na pobreza, eles praticam a pobreza ativamente, não tentam um desprendimento hipócrita, eles buscam realmente viver com o menos possível. Isso significa: depender apenas das coisas certas.

Esta pobreza é infinita, porque só assim pode-se conquistar a liberdade. Os Cínicos sabem disso melhor que Sêneca, melhor que Sócrates, que Buda e Francisco de Assis! Não é uma aceitação passiva, resignada, é um esforço para sempre ir além. A reversão Cínica acontece quando a pobreza chega finalmente ao nível da dependência absoluta, ou seja, é preciso mendigar. Assim, aproximando-se cada vez mais da figura do cão, em sua busca pela verdade, em sua busca filosófica por uma vida sem mistura, o Cínico muda o valor da moeda e torna-se sujo, mal cheiroso e feio. Diógenes dizia que não era filósofo apesar da pobreza, mas exatamente por causa dela. As unhas de Platão eram limpas demais, seus cabelos cheiravam bem demais, logo, ele não era filósofo!

A pobreza cínica deve ser uma operação que fazemos sobre nós mesmos, para obter resultados positivos, de coragem e de resistência” – Foucault, A Coragem da Verdade, p. 227

A verdade Cínica acontece quando, vivendo na mais profunda pobreza e desonra, conquista-se a indiferença dos outros. A adoxia, que significa má reputação, era absolutamente temida pelos gregos, mas desejada para os filósofos Cães. Resistir às opiniões, às crenças e às convenções. E mais, criar situações vergonhosas e desonrosas para testar-se. Sim, se a verdade é pura, ela não está com o populacho e seu senso comum.

O Cínico, no próprio momento em que faz o papel mais desonroso, faz valer seu orgulho e sua supremacia. O orgulho cínico se apoia nessas provas. O cínico afirma sua soberania, seu controle através dessas provas de humilhação” – Foucault, A Coragem da Verdade, p. 231

Chegar ao fundo do poço, mendigar, pedir comida, dormir na rua (ou num tonel), é ser livre. Perder tudo é tornar-se livre. O exercício da pobreza torna o homem mais forte, capaz do auto-domínio. Um filósofo que procura a verdade não segue o caminho dos tolos. A feiura, a humilhação é a saída de um mundo de hipocrisia, falsos valores, fingimentos, orgulho. Mendigar é ser superior, não ter nada é ser melhor que quem tem tudo. Diógenes reina sobre Alexandre e seus súditos, tudo gira ao seu redor.

> Texto da série: “Platão e Diógenes: Descaracterizar a Moeda” <

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Diógenes e Alexandre, por Cornelis de Vos

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

3 comentários

  1. A Razão é mesmo uma ferramenta formidável! Com ela, dissecamos a história da filosofia, e a filosofia em si salta aos olhos! Agora, entre os pensadores antigos, eu prefiro os sofistas – verdadeiros professores de filosofia – estes, sim, heróis!!!

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  2. Não tenham vergonha do modo de vestir, não tenham vergonha dos hábitos que praticam regularmente, não tenham vergonha das suas crenças, não se envergonharás. Os mandamentos cínicos exploram exatamente essa ideia. Viver a vida, de acordo com a perspectiva intrínseca de cada um. É, uma filosofia agarrada na ideia de liberdade. Esplêndido!

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