Contra os mediadores – Quem quer mediar entre dois pensadores decididos mostra que é medíocre: não tem olho para o que é único; enxergar semelhanças e fabricar igualdades é característica de olhos fracos” – Nietzsche, Gaia Ciência, §228

Nietzsche-Freud Nietzsche e Freud podem ser considerados contemporâneos; com apenas 12 anos de diferença, os dois viveram praticamente no mesmo ambiente cultural: uma Europa que passou por enormes modificações ao longo do séc. XIX. Sendo assim, seria quase impossível que estes dois grandes pensadores não exibissem aspectos em comum.

Contudo, muitos enumeram apressadamente suas semelhanças como se Freud desse mero prosseguimento às ideias de Nietzsche, ou fosse sua versão clínica/terapêutica. Estão muito enganados aqueles que colocam os dois autores no mesmo saco e saem desfilando sua intelectualidade. Por isso torna-se tão urgente analisar as diferenças entre Nietzsche e Freud.

Em primeiro lugar, vale dizer que as semelhanças entre os dois autores encontra-se sobretudo naquilo que Nietzsche herdou de Schopenhauer. Sim, Freud está muito mais próximo da figura asceta de Schopenhauer que do super-homem de Nietzsche. Até mesmo sua apropriação de Nietzsche pode ser pensada através da ótica schopenhaureana, cuja obra influenciou muito mais o psicanalista (veja aqui).

Nesta primeira parte, ficaremos no campo das pulsões, do inconsciente e afins, mostrando as diferenças na concepção de base destes dois pensadores, na segunda parte, veremos como estes conceitos se refletem em sua definições de cultura e ética. Aproveitem:

O inconsciente é a grande descoberta da psicanálise. Povoada por representações recalcadas, é o quarto de despejo de nossa cultura, o ponto cego de nossa consciência. A descoberta do inconsciente funciona como o próprio termo indica: des-cobrir, encontrar sua lógica. Na apropriação tópica, é como se houvesse algo por baixo do homem para ser visto, analisado, estruturado; algo como “o mundo como vontade e como representação”, um véu de maia que separa o consciente do inconsciente mas que revela-se nos sonhos, atos falhos e chistes.

No lugar do “inconsciente estruturado como uma linguagem”, onde vemos as pretensões racionalistas da psicanálise, temos a Vontade de Potência nietzschiana. Forças que estão para além da dicotomia essência/aparência e que definem-se pelo seu próprio ato de efetuação. Forças em relação de conflito e resistência manifestam-se para nós exatamente como são: “Um mar de forças“, ânsia de domínio e mais potência, mais vida, mais afirmação, turbilhão de intensidades.

Freud recodifica o irracional no seio da família, enquanto Nietzsche trabalha no caminho oposto, o racional enquanto fruto da irracionalidade das forças. A Vontade de Potência é nômade demais para ser contida em uma estrutura. Enquanto o inconsciente freudiano é descoberto ou analisado, o inconsciente nietzschiano é produzido. No lugar de um inconsciente datado, reprimido, perigoso e cheio de conteúdos insuportáveis para a consciência, Nietzsche contrapõe um inconsciente raro, singular, sempre novo e aventureiro, artista.

Aqui podemos diferenciar o peso da psicanálise da leveza do autor de Zaratustra. Em Freud os conteúdos inconscientes permanecem recalcados e o aparelho psíquico necessita de uma constante dose de energia para manter estes conteúdos longe da consciência. Os “neuróticos comuns” carregam o passado como um fardo, uma bola de ferro presa aos pés, eternos prisioneiros de crimes que não cometeram.

Qual a nossa capacidade de esquecer? Não estamos falando de recalcar, estamos falando de abrir espaço para o novo, vivenciar de modo puro e direto, sem as marcas do passado. O inconsciente freudiano é ressentido porque não consegue livrar-se das marcas, elas permanecem no homem, incomodando, coçando, atrapalhando desde o trauma do nascimento, onde vivíamos no útero perene, quente e seguro. Em Nietzsche encontramos um esquecimento ativo, próprio dos nobres. “Logo se vê que não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento” (Nietzsche, Genealogia da Moral).

O inconsciente é também o lugar onde se encontram as pulsões em seu estado mais “puro”. Esta é uma diferença profunda que racha em dois a pretensão dos conciliadores de Nietzsche e Freud. No psicanalista, a pulsão é a fonte do desejo em sua forma de coisa-em-si. Qual a representação deste desejo? Falta, lamento do castrado. Pulsão como possibilidade de materialização da falta no mundo. A interpretação psicanalítica nos confronta com uma ética do consolo, do pesar, do infortúnio de ter nascido.

Temos dois modelos: em Nietzsche, êxtase dianisíaco: a pulsão é criadora, é superação de uma barreira, é conquista, elo direto com a existência; em Freud, sobriedade da interpretação: descarga de tensão, falta do objeto original, tentativa sempre incompleta de satisfação. Se a pulsão em Nietzsche é a própria existência, é o corpo e o mundo, em sua própria manifestação e atualização violenta e brutal, Freud erige uma barreira entre a pulsão e seu representante, o objeto símbolo da falta, o objeto a, motivo do desejo, melodia lamuriosa.

Vemos como o autor de Zaratustra se esforça para mostrar que não há nada fora do todo, a pulsão não remete a uma realidade fora desta, ela é uma força de exteriorização da própria força, é a Vontade de Potência buscando aumentar seus territórios; Freud fecha sua definição de pulsão como uma necessidade de satisfazer uma carência, ela sempre é agida de fora. É a contragosto que o psiquismo age em Freud, ele preferiria ficar parado, em inércia, ou desfazer-se logo e eliminar toda a tensão insuportável da vida.

“O pobre em vida a debilita, o rico em vida a enriquece” – Nietzsche, Vontade de Poder

Mas o ponto crucial é o dualismo da teoria psicanalítica frente ao monismo de Nietzsche. Eros e Thânatos são as duas possíveis formas de manifestação das pulsões que se encontram no Id. Mas em Nietzsche o perspectivismo é primordial para entender o sentido pulsões: Vida e Morte são dois nomes para a mesma coisa. O próprio sentido das pulsões é que deve ser questionado em Nietzsche.

Aquiescer à civilização, tomar o partido de Eros (separado falsamente de seu oposto, Thânatos) é dar vazão a um niilismo que se tornará cada vez mais profundo na psicanálise: vontade do Uno, do imóvel, do completo, da pacificação. Os impulsos gregários de Eros são tão niilistas e perigosos quanto os impulsos de destruição. Só é possível vencer o niilismo juntando os dois em uma Vontade de Potência afirmadora do devir, do vir-a-ser. Eles não podem ser separados nem para explicações pedagógicas.

A força da pulsão de morte como “retorno ao inorgânico”, ilusão de um ponto zero, unificado, seguem o mesmo caminho; a tola definição de um “princípio de nirvana” nos mostra a profundidade do niilismo psicanalítico. Transformar a morte em princípio ativo, entidade ontológica faria Nietzsche vomitar de desgosto. As pulsões não querem retornar, muito menos eliminar tensão. O retorno é apenas da afirmação e da diferença (veja aqui). As pulsões são apenas umas força de afirmação, ela quer. Quer o quê? Quer afirmar-se.

O paradigma estético de Nietzsche nos faz olhar para a pulsão sempre através de um prisma criativo, a destruição é uma fonte de criação, mas nunca pacificada, nunca terminada, nunca esgotada, nem finalizada, ela sempre dá novos sentidos. Qualquer limitação à pulsão já é indício de empobrecimento, é indício que outra força maior tomou posse dela. Se em Freud a pulsão nunca chega realmente a completar-se e isto é um problema, em Nietzsche, isto indica a própria manifestação da perfeição no todo da existência.

Quais as consequências destas duas visões? Um regime das pulsões, uma interpretação dos sentidos, uma questionamento do valor dos valores implica em um modo de vida. A civilização é esta complexa estufa onde as pulsões darão forma aos seres humanos e suas tábuas de valores. A pulsão não é transcendente, ela é histórica e social. A civilização foi construída sobre alicerces pulsionais, cabe ao filósofo e ao psicanalista expor suas relações e intenções. E será este nosso objetivo no próximo texto.

> Nietzsche e Freud: 2a. parte (Cultura e Mal Estar) (em breve) <

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

11 comentários

  1. Texto maravilhoso. Também, envolvendo dois mestres da psicologia não se podia esperar o contrário.
    Bem explicado, pude desconstruir algumas informações que tinha coletado a respeito da “semelhança” entre os dois pensadores. Considero isso de extrema importância e desde já agradeço.

    Estou ansiosa para a continuação.

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  2. Prevalece em Freud, como no poeta Augusto dos Anjos, a cultura religiosa do pecado original. Apresenta, no entanto, uma já evolução que luta contra esta cultura de além.

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  3. Grande texto. O Nietzsche está muito próximo de Spinoza que via a natureza como eterno devir, eterna autoprodução desvinculada de moralismo e de conflitos. Pois se só existe uma natureza, ela age sobre ela mesma gerando modificações, transformações inesgotáveis. Freud tenta focar as relações consciente/inconsciente numa oposição natureza x cultura ( de sua época), que era fortemente repressora da sexualidade. Acho que Nietzsche e Spinoza viam a natureza para além do bem e do mal. Freud enfatizava mais a relação natureza/cultura e portanto, a relação consciente inconsciente como inevitavelmente conflituosa. Entre o inconsciente e o consciente estaria o Ego tentando “negociar”, atender hora às exigências do inconsciente hora as exigências da cultura incorporada aos fatores conscientes. Interessante ver as coisas sob diferentes pontos de vista. abrs.

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  4. Bacana o texto, bem explicativo. Freud leva a vontade de poder para outros rumos e tenta criar um sistema psicanalítico. Já Nietzsche, era totalmente contra sistemas. Não gostei apenas do “super-homem”. Essa tradução é bem pobre para o Übermensch.

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  5. Poxa vida, estou estudando a história da filosofia contemporânea nesse semestre e um dos pontos que se debateu bastante é sobre as semelhanças e divergências entre Nietzsche e Freud…. Achei muito bom o texto, mas fico pensando que é uma pena não ter a segunda parte… Ao menos se ela foi upada, não linkaram nessa página. Todavia se sair a continuação desta matéria estarei ansioso para ler.

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  6. Porém Freud também propõe o gozo, o libidinal, sinônimos as múltiplas pulsões de realização à serenidade e completude ao ser experiente. Gerando a opinião de que a psicanalise aqui foi tratada de maneira leviana e então tende, ao menos nesta primeira parte, mais à ação pratica filosófica dos caros, nietzschianos, do que realmente os diferenciar. Contudo, neste primeiro texto, é possível agregar também, e muito bem, até conceitos do influente amigo Heidegger, de ambos Nietzsche e Freud, na fenomenologia considerando outro poto de vista. Entretanto, torna muito curiosa à leitura da segunda parte da Série “contra história da psicologia”…. Sendo sempre interessante ver as coisas sob diferentes pontos de vista. abrs.

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  7. Há uma grande diferença entre Freud e Nietzsche. Freud é um grande desbravador, enquanto Niet é filólogo, filósofo, poeta e pensador. Freud fala do homem. Niet fala sobre a vida, algo que nós humanos talvez nem sequer sabemos ou sonhamos, mas acredito sinceramente que estamos chegando lá.
    Enquanto Niet fala da Vida, ele criará uma psicologia Ativa. Enquanto Freud criou um sistema de significados reativos para determinar tudo que existia acerca do vivente, ou seja, ao analisarmos um sujeito, iremos encontrar uma gama de resistências, sintomas, conflitos, negações, etc… diante da vida e de como viver a vida.
    Enquanto Niet está acima para o bem e para o mal disso tudo, pq o que interessa para ele é a vida e nada além disso, viver a vida tal como ela é, Freud se preocupa como o sujeito perante essa dimensão concreta se estabelece. Que seria de forma reativa, de forma niilista. Por isso, ainda acho que enquanto Freud fala de um sujeito micro, Niet está para uma visão Macro e vai além, muito além.

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