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Abolimos o mundo verdadeiro: que mundo restou? O aparente, talvez?… Não! Com o o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente! (Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro; apogeu da humanidade; INCIPIT ZARATUSTRA [começa Zaratustra].)”

– Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, cap IV

Depois da instauração do platonismo, de seu aperfeiçoamento através do kantismo, e de seu afundamento com Schopenhauer, chegamos ao fim da linha. Olhamos para trás e parece que não há mais nada para se fazer, onde está o mar para que possamos nos afogar? O mar secou… e agora? Nietzsche e Deleuze se perguntam se esta seria a única maneira de viver encontrada pelo homem e se não haveria outra. Ora, a única saída possível parece ser retornar ao erro inicial e consertá-lo, mostrar como a solução de Platão era uma maneira impotente de lidar com o niilismo. Ou seja, é possível encontrar uma saída ativa: reverter o platonismo.

O que significa ‘reversão do platonismo’? Nietzsche assim define a tarefa de sua filosofia ou, mais geralmente, a tarefa da filosofia do futuro. Parece que a fórmula quer dizer: a abolição do mundo das essências e do mundo das aparências”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

Nosso filósofo niilista desta última apresentação será o próprio Nietzsche. Afinal, ele é um dos poucos filósofos que tornou-se aquilo que é. Desde o início de sua obra, encontramos Nietzsche preocupado com estas questões. Parece que a filosofia platônica se espalhou de tal maneira que ofusca todos os problemas filosóficos e impede saídas. O filósofo alemão procura por uma filosofia de ar puro, que não se perca no mundo das ideias, nas leis da razão nem no abismo da Vontade. Apenas desta maneira será possível voltar a filosofar.

Minha filosofia: platonismo revertido: quanto mais afastado do verdadeiro ente, tanto mais puro, belo, melhor. A vida no brilho da aparência como meta”

– Fragmento póstumo, 1970 (antes mesmo do Nascimento da Tragédia)

A filosofia platônica desvaloriza este mundo em nome de outro! Fala de um além-mundo que começa a medir e acusar este. É hora de perverter o platonismo! Mas como? Ora, à maneira de Nietzsche: fazendo um filho pelas costas! Se Platão define o verdadeiro, será que é possível definir o falso? A coisa aqui fica muito séria e perigosa! Porque supostamente o falso é aquilo que se afasta do verdadeiro! O ser é em si, brilha lá no alto. O devir é perecível, engana os sentidos, perambula aqui embaixo. Mas em vez de nos perguntarmos pela verdade do ser, desta vez procuraremos pela verdade do falso! Qual é a verdade do falso? Qual o ser do não-ser? Qual é a potência do falso?

Ora, do não-ser nada se pode dizer! Só se pode falar da ideia e e de suas degradações. Lembram-se dos aspirantes às Ideias? Pois é, quanto mais verdadeiro, mais podemos falar, e do falso nada podemos dizer! Ou seja, só falamos das imobilidades! Parmênides: “o ser é”, e podemos defini-lo, “o não-ser, não é”, e nada pode ser dito! Mas… e o simulacro? Que existem ideias e cópias, nós já sabemos, mas os simulacros foram as cópias que se perderam, que não mais respondem às ideias, desviaram-se de sua essência, não querem mais se aproximar da Ideia. Perderam seu sentido! Ou melhor, ganharam outro sentido, uma outra lógica!

O não-ser se diz em algum sentido! Não o que os filósofos esperariam, não de maneira comportada, mas com alguma outra lógica! Então a ideia não é sempre o critério máximo! Existem outras maneiras de se mover pelo mundo! Existe uma maneira de falar do não-ser, do simulacro, sem remetê-lo à Ideia! Há um funcionamento que é governado pelo critério do falso (e não da verdade). Concluímos que o não-ser é uma maneira de ser! Esse “não”-ser, o simulacro, não é a negação do ser, ele é “alguma-coisa”-ser! O Simulacro é uma nova maneira de ser! Ele cria uma nova maneira de existir, segundo outros critérios que não os que estamos acostumados. Eles emergem com uma filosofia própria e diversa! Um modo de vida baseado não na semelhança, mas na diferença!

Contra Platão, dizemos que o vir a ser não é o caos absoluto, mas passível de encontrar certa lógica, certa maneira de existir. Abandonar o verdadeiro e o falso, as Ideias e as cópias é começar a afastar-se de toda transcendência! Fim das falsas dicotomias, colocar-se para além do bem e do mal. Tudo aqui torna-se pura afirmação! Todas as forças agora querem apenas efetuar-se o máximo possível segundo seus próprios critérios. Mas não é caos, não é tudo vale, é simplesmente um retorno à imanência, destituição do mundo das ideias para encontrar uma lógica dos movimentos. Nietzsche dá um nome para o mundo: Vontade de Potência, e nada além disso.

Reverter o platonismo significa então: fazer subir os simulacros, afirmar seus direitos entre os ícones ou as cópias. O problema não concerne mais à distinção Essência-Aparência, ou Modelo-cópia. Esta distinção opera no mundo da representação; trata-se de introduzir a subversão neste mundo, ‘crepúsculo dos ídolos’. O simulacro não é um cópia degradada, ele encerra uma potência positiva que nega tanto o original quanto a cópia, tanto o modelo como a reprodução”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

Engolir todo fundamento que não seja o próprio mundo em movimento, isto é a Vontade de Potência em ação, operando em cada um de nós. Não há mais critério exterior que fundamente este mundo, há apenas a busca por mais potência, mais diferenciação, mais criação de valores! Somos capazes de afirmar este mundo, esta realidade, esta vida? A verdade será então a verdade do devir! Pura e simplesmente! Toda a segurança está em, num último caso, não haver segurança!

Instaura o mundo das distribuições nômades e das anarquias coroadas. Longe de ser um novo fundamento, engole todo fundamento, assegura um universal desabamento”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

– Zdenka Palkovic

E aqui chegamos em Nietzsche analisando sua própria filosofia em Ecce Homo! O filósofo inicia um novo gesto instaurador! A filosofia torna-se aqui modo de vida, análise de suas próprias pulsões, esforço de criação para além de si. Sim, o niilismo se acelera, mas esta é uma das maneiras pelas quais ele cumpre o seu programa, desatando seu barco do cais dos fundamentos eternos e procurando seus próprios caminhos, seus próprios critérios no mar aberto da imanência. Aqui sim, finalmente se reverteu o platonismo! Não há para onde voltar! Devemos ir além! Levar o niilismo até suas últimas consequências!

O niilista ativo é apenas a oportunidade para que algo maior aconteça, ele adiciona algo no mundo, fermenta a mistura, o caldo do devir. Algo em nós quer sempre mais, quer seguir adiante, quer crescer e se multiplicar. A Vontade de Potência abre espaço em cada um de nós, de maneira totalmente impessoal, mas organizadora. Foi isso que fez o filósofo alemão, pois foi capaz de analisar a si mesmo, encontrar em si os pontos fracos e fortes, onde é possível resistir, onde é necessário se afastar e onde é possível deixar-se levar. Mergulhar no abismo de si mesmo, confrontar-se com suas próprias forças, seus limites, seus desejos. Experimentar-se como a expressão direta de uma infinidade de forças que se cruzam em um único ponto do universo, formando uma combinatória única e singular.

Como não ruir em face do abismo de si e do mundo? É necessário guardar sempre um pouco de saúde para os momentos de dificuldade. Nietzsche não deixou-se abalar nem nos priores momentos de sua vida, não foi contaminado pelo ressentimento que o ameaçava. Aprendeu a ser aquilo que era e seguir como nômade os caminhos que o mundo lhe dispunha. Qual a potência daquele que não imita ninguém? Criar a si mesmo! A potência da imanência niilista completa é criar valores que não brilham no céu das ideias nem chegam através de uma razão legisladora. Ter a chance de elevar-se para além de todo e qualquer modelo que os outros impõem.

Os critérios de Nietzsche são imanentes: a cozinha da região, afinal, o estômago é tão corpo quanto qualquer outra parte; o ar que se respira, afinal, há de se respeitar as vias respiratórias; juntamente com o ouvido, temos três sentidos que sempre foram rebaixados pela visão, sensibilidade platônica por excelência. Devemos começar pelo corpo, e Nietzsche caminhava todas as manhãs para lembrar-se disso! Os pensamentos brotam de um corpo que se move, andam na superfície da pele, vivem para se afirmar, desejam se expandir, criam modos de vida!

Abandonar o niilismo passivo é enfrentar a existência sem pedir por critérios exteriores a ela, sem apelar para qualquer outro mundo ou entidade sobrenatural! A diferença entre o niilismo passivo e o ativo não está no diagnóstico, mas na força para habitar este plano de imanência. Um cria conceitos para se esconder atrás, outro cria ferramentas para forjar um mundo novo. Encontrar um modo de vida ativo é fazer da própria vida o meio de abençoar este mundo. O niilista ativo quer estar onde está! Se contenta, se alegra, se orgulha. Sente-se capaz e sorri com satisfação! Ele está exatamente onde gostaria, não desejaria estar em nenhum outro lugar, ama seu destino.

Neste dia perfeito, em que tudo amadurece e não é somente o cacho que se amorena, acaba de cair um raio de sol sobre minha vida: olhei para trás, olhei para frente, nunca vi tantas e tão boas coisas de uma só vez”

– Nietzsche, Ecce Homo

Neste momento, Nietzsche está pleno de si, se pudesse retornar, seria exatamente para este mesmo ponto, esta mesma vida. Ele está no centro de si mesmo, e o universo está aos seus pés. Não há mais oposição, mas sim composição! Toda vida que se afirma ativamente aceitaria facilmente retornar, diferente dos túmulos tristes de Schopenhauer.

Torna-te quem tu és será de agora em diante nossa fórmula! Todo niilismo ativo se faz neste mundo, afirmando este mundo, criando valores para este mundo. Apenas nós podemos descobrir quem somos e seguir nosso destino. Afirmação integral da vida, porque afirma-se também a vontade de estar nele! Incondicional porque se sabe e reconhece suas capacidades! Ilimitada porque onde tudo é afirmado como um todo (único modo de afirmar realmente) não é mais possível fazer a separação homem e mundo. Os dois se tornam uma única e mesma coisa: Vontade de Potência.

Este meu mundo – quem possui clareza bastante para olhá-lo sem desejar estar cego? Forte bastante para manter sua alma face a este espelho? E seu próprio espelho face ao espelho-Dionisio? Sua própria solução face ao enigma-Dionisio? E aquele que disso seria capaz não deveria então fazer ainda mais? […] com a vontade de querer de novo e ainda mais uma vez? Com a vontade de querer retrospectivamente tudo o que existiu? A vontade de querer ir ao encontro de tudo o que pode necessariamente existir?”

– Nietzsche, Fragmento Póstumo

Nietzsche guarda um novo orgulho e um novo desprezo: orgulha-se dos que querem ir além-do-homem e despreza os últimos homens. Separam-se os fortes dos fracos! Separa-se o niilismo ativo dos outros três! Os anteriores eram apenas maneiras de escamotear a vida, fazer a existência valer menos do que é. É tudo um questão de perspectiva: o niilista ativo constata o niilismo através de um excesso de potência! Ele sabe do perigo, mas não se intimida. Cria valores porque vê que os que aí se colocam são artificiais, fracos, impotentes. Fisiologia: um chega ao niilismo pela doença, outro pela saúde; um pela falta, outro pela abundância. O primeiro gostaria que tudo acabasse, se deixa levar pela destruição, o segundo coloca mãos à obra, e torna-se, consequentemente, parte da destruição! O primeiro não saberia o que colocar no lugar, por isso não age; o segundo sabe o que colocar no lugar, por isso age com um martelo na mão.

Nietzsche representa muito bem aquele que não se deixou quebrar pelo niilismo, mas fez dele um aliado, encontrou uma maneira de criar sentido através da falta de sentido! Ultrapassar o niilismo sem chegar em outro mundo. Esta é a verdadeira força do niilista ativo, mesmo em face da existência em sua expressão monstruosa, é possível transbordar potência e criação! Não fugir do niilismo, mas habitá-lo criando conceitos capazes de transvalorá-lo, dando-lhe consistência e eternidade!

A filosofia precisa encarar o niilismo, para criar, para ir além. Nietzsche fez isso não apenas em palavras e aforismos, mas em sua própria vida, suas biografias são prova disso! Por isso ele é aquele que superou as formas fracas e anteriores de niilismo e as transvalorou! Nele, homem, obra e mundo se confundem, já não se sabe quem é quem. O mundo é palco, ocasião, oportunidade; a obra é brilho, efeito, estrondo, “eureca”; o homem é meio, portão, vazão, instrumento da Vontade de Potência. Aqui a filosofia deixa de ser a busca por uma verdade e passa a ser a verdade de uma vida, bem vivida ou não, mas afirmada até o fim.

Enquanto Platão, Kant e Schopenhauer foram maus jogadores, perderam e culparam a vida, Nietzsche logrou tornar-se aquilo que era, cumpriu assim seu destino. Um elo de expressão para forças muito maiores que o atravessavam. Ele não quebrou, muito pelo contrário, fez e ainda faz o mundo quebrar. Toda grande afirmação ressoa pela eternidade! Neste sentido podemos dizer, o filósofo alemão não era um homem, era realmente dinamite!

Texto da Série:

4 Formas de Niilismo

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Tom
Tom
2 anos atrás

Por mais que os temas discutidos sejam interessantes, os erros gramaticais recorrentes tiram o foco do conteúdo dos textos. Nota-se, ao ler a série acerca do Niilismo, que não há nenhum esforço em corrigir ou, ao menos, diminuir os equívocos que, muitas vezes, tornam os textos confusos. Eu não sou professor de língua portuguesa, mas há erros claríssimos nos textos. Alguém que se propõe a discutir temas filosóficos deveria se atentar a esses detalhes, ainda mais se se levar em consideração de que se trata de um leitor assíduo de textos de Filosofia.

Rafael Lauro
Reply to  Tom
2 anos atrás

E aí Tom…

Somos um site pequeno e independente, ainda sem dinheiro para contratar um revisor.

Aceitamos as críticas, mas seria-nos mais útil uma ajuda. Se você puder indicar os erros quando vê-los, todos saem ganhando! 🙂

Obrigado!

CristianLima2
CristianLima2
Reply to  Tom
2 anos atrás

Site pequeno, porém, maravilhoso.

matheusimon
matheusimon
2 anos atrás

Muito bom, descobri seu blog hoje e estou amando, já me esclareceu muito sobre os pessimistas que tanto gosto, continuem com o ótimo trabalho.

Edson
Edson
1 ano atrás

Não entendo como Platão pode ser considerado Niilista se tem o ideal como sentido de vida e de evolução.
Não sei como um Niilista “ativo” poderia trazer novidade ao mundo se tudo apenas se repete. Nao há novidade possível.
Dizer q Platão, Kant e outros sao perdedores, ultrapassados etc. soa-me um tanto positivista. Vejo-os como contribuidores.